{"id":4735,"date":"2022-05-07T18:04:07","date_gmt":"2022-05-07T17:04:07","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalocrime.com\/?p=4735"},"modified":"2022-05-07T18:04:07","modified_gmt":"2022-05-07T17:04:07","slug":"4735-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalocrime.com\/ilnes\/4735-2\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong>Marcus Garvey<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caro leitor, antes de tudo, pe\u00e7o perd\u00e3o ao povo angolano pelo crime cometido e cumprido nos v\u00e1rios estabelecimentos prisionais de Angola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou Jesuino Futila, mais conhecido por Marcus Garvey, nascido em Luanda, aos 13 de Dezembro de 1996, no munic\u00edpio do kilamba kiaxi, bairro Golf1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasci e cresci no munic\u00edpio do kilamba-kiaxi, onde acabei por praticar o crime de homic\u00eddio por leg\u00edtima defesa, que me levou a cumprir cinco penosos anos nas cadeias de Angola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas p\u00e1ginas do Jornal O Crime, vou desabar, vou abrir o meu cora\u00e7\u00e3o e contar um pouco da minha hist\u00f3ria, um pouco da minha experi\u00eancia nas cadeias de Angola. Errar \u00e9 humano, e todo ser humano merece uma segunda oportunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 17 anos de idade, fui parar na cadeia pelo crime de homic\u00eddio que n\u00e3o havia inten\u00e7\u00e3o de o praticar. Este triste acontecimento ocorreu no dia 6 de Agosto de 2014, por volta das 9 horas, quando decidi ausentar-me de casa para visitar alguns amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia 6 de Agosto de 2014 foi um domingo e neste dia, minha m\u00e3e pressionava-me tanto para que fosse com ela \u00e0 igreja. Acho que ela estava a pressentir que algo de errado podia acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o fui, pelo contr\u00e1rio, quando eram provavelmente 9 horas, da manh\u00e3, a minha m\u00e3e ausentou-se de casa, despediu-me que iria ter com uma amiga e que n\u00e3o poderia demorar e pediu-me, por conseguinte, para que n\u00e3o sa\u00edsse de casa, pois, quando regressasse pod\u00edamos ir \u00e0 igreja juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo que a minha m\u00e3e se ausentou eu esperei uns 5 minutos e decidi sair tamb\u00e9m. Era para fugir da minha m\u00e3e porque eu n\u00e3o queria ir \u00e0 igreja. Deixei a roupa na m\u00e1quina a girar e pedi \u00e0 minha irm\u00e3 mais nova para controlar a roupa que estava na m\u00e1quina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orientei-a para, depois, depois estender a roupa e disse-lhe tamb\u00e9m que n\u00e3o eu demoraria, mas na verdade demorei quase 5 anos e pior, matei algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela retrucou: \u201ca mam\u00e3 n\u00e3o disse para voc\u00ea n\u00e3o sair\u201d? Eu respondi \u201cN\u00e3o vou demorar\u201d, e fui. Desgra\u00e7a come\u00e7ou desde o momento que desobedeci a minha m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caminho para a rua, onde se concentravam os meus amigos, algo me dizia para voltar, mas na verdade n\u00e3o dei ouvidos \u00e0quela voz interna e prossegui a caminhada.<\/p>\n<blockquote><p><b>A leitura do Jornal O Crime devia ser obrigat\u00f3ria em todas as cadeias do pa\u00eds, pois, \u00e9 de extrema utilidade, eles contam as hist\u00f3rias do crime, consequ\u00eancias para quem se envolve no crime e conselhos.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/b><\/p>\n<p><b>Um indiv\u00edduo que n\u00e3o consegue perdoar, n\u00e3o deve esquecer que esta destruir a porta que um dia vai precisar passar por ela.<\/b><\/p>\n<p><b>Porque todos n\u00f3s estamos sujeitos a cometer uma atrocidade, mas devemos reconhecer que n\u00e3o devemos optar por esta via do crime.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/b><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o entendi, no momento, aquela sensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o dei ouvidos nem ao meu instinto, que hoje se pudesse entender aquela voz interna que me dizia para voltar a casa, mas teimosamente decidi ir adiante e fui numa rua ver alguns amigos, mas a rua estava isolada e n\u00e3o encontrei nenhum deles, o que achei muito estranho, pois, aquela rua nunca ficava isolada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta feita, decidi regressar \u00e0 casa, mas j\u00e1 era tarde demais&#8230; \u00c9 que, no meu regresso fui interpelado por cinco jovens do mesmo bairro onde eu residia, estavam todos aparentemente drogados de liamba, uma vez que uns ainda fumavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um deles disse-me que faltei ao respeito em um dos seus amigos. Perguntei qual dos amigos, como resposta deu-me um soco na cara assim mesmo do nada. No mesmo instante um deles retirou uma faca da cintura para me desferir um golpe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo dei conta que era algo planeado como est\u00e1vamos diante de uma bancada, onde tinha uma senhora a vender bomb\u00f3 com gigunba, no tabuleiro da mesma tinha uma faca com que ela trabalhava, logo que vi o jovem a puxar a faca, a primeira coisa que pensei foi em me defender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esforcei a defender-me e peguei na faca da senhora que ficou assustada e gelada a assistir \u00e0quele tr\u00e1gico cen\u00e1rio. Foi tudo muito r\u00e1pido, desferi um golpe na regi\u00e3o da barriga do jovem que me deu o soco, infelizmente teve morte imediata. Lamentarei pelo resto da minha vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Triste situa\u00e7\u00e3o que aconteceu comigo, at\u00e9 hoje me pergunto porque tinha de ser assim?<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Arrependo-me de n\u00e3o ter ouvido a minha m\u00e3e, minha irm\u00e3 e o meu instinto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de desferi o golpe com a faca ao jovem, coloquei-me em fuga, corri como nunca ainda com a faca \u00e0s m\u00e3os e o bairro que estava isolado em poucos segundos ficou cheio e todos me davam corrida para fazerem justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os, mas Deus parece que tinha plano comigo, pretendia dar-me uma li\u00e7\u00e3o, pois, n\u00e3o sei como consegui escapar e estar aqui hoje a contar essa triste hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para escapar do linchamento popular, entrei numa resid\u00eancia, pulei o muro da casa do vizinho que dava acesso a outro bairro, da\u00ed consegui escapar ileso. Quando cheguei ao Golf2, estava sem dinheiro para seguir a fuga. Logo vi um jovem conhecido do bairro que era tamb\u00e9m achegado a mim, logo que me viu assustou e disse-me \u201cainda estas aqui\u201d?! O jovem que voc\u00ea picou-lhe a faca morreu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinceramente n\u00e3o queria acreditar, porque eu n\u00e3o tinha certeza da morte do mesmo, porque logo que desferi o golpe puxei a faca e corri, n\u00e3o tive tempo de ver se estava morto ou vivo, nem vi ele cair por isso n\u00e3o queria acreditar na morte dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedi-lhe 200 kwanzas, e foi com este valor que consegui apanhar<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>um t\u00e1xi do Calemba 2 at\u00e9 \u00e0 resid\u00eancia da minha tia (irm\u00e3 da m\u00e3e).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E logo que cheguei no bairro da irm\u00e3 da minha m\u00e3e deitei a faca numa lixeira e caminhei at\u00e9 \u00e0 casa da minha tia, que logo que me viu come\u00e7ou a chorar e pediu-me para n\u00e3o sair de casa. Logo veio o marido dela que \u00e9 agente policial e pediu-me que lhe contasse o sucedido e disse-me para ficar calmo e que eu devia se entregar \u00e0s autoridades e respondi afirmativamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o demorou muito o meu tio ligou a um comandante que, de imediato, disponibilizou uma patrulha, o comandante veio ter comigo e disse-me para n\u00e3o se preocupar que tudo iria se resolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui posto na patrulha, a minha tia a chorar n\u00e3o acreditava no que estava acontecer assim como eu n\u00e3o estava a compreender. Destru\u00edmos nossas vidas em frac\u00e7\u00f5es de segundos por m\u00e1s op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui levado \u00e0 Esquadra do Calemba 2, onde encontrei uns agentes j\u00e1 a comentarem sobre o meu caso. Nunca fui t\u00e3o torturado na minha vida como naquele dia. Depois me transferiram para Esquadra dos Correios, onde voltei a ser torturado, que at\u00e9 parecia ser uma norma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posteriormente fui evacuado para o Comando do Projecto Nova Vida, onde fiquei 12 dias na cela e s\u00f3 no 13.\u00ba, \u00e9 que, fui ouvido pela Procuradora que me pediu para contar como tudo aconteceu. Fi-lo e depois me disse que devia ser transferido para o julgado de menor, mas nunca aconteceu, ao contr\u00e1rio disso, fui evacuado para Comarca de Viana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Comarca de Viana, vi pela primeira vez o inferno na terra. Era muita gente num espa\u00e7o reduzido. Pensei que estava em outro mundo, pese embora a cadeia seja de facto \u201coutro mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei na cadeia de Viana 7 meses e fui evacuado para cadeia de Calomboloca, onde cumpri a maior parte da minha pena. Fui parar na cadeia de Calomboloca porque aconteceu uma briga na cadeia de Viana onde decidiram evacuar quase todos os presos para diversas cadeias porque tamb\u00e9m estava claramente sobrelotada.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><b>Os familiares do malogrado tentaram destruir a casa dos meus pais<\/b><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto estava preso, os familiares do malogrado, revoltados juntaram-se e tentaram destruir a casa dos meus pais, das minhas tias. Gra\u00e7as aos vizinhos, que conheciam, impediram e a pol\u00edcia que chegou a tempo de evitar o pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, houve arremessos de pedras no teto de casa e no port\u00e3o, invadiram o quintal levaram tudo que havia l\u00e1 e pela interven\u00e7\u00e3o dos vizinhos n\u00e3o conseguiram entrar no interior da casa, porque os meus familiares j\u00e1 se haviam apercebido cedo que eu havia praticado o crime e tamb\u00e9m fugiram e fecharam a casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por muito tempo, os meus familiares ficaram fora de casa, os meus irm\u00e3os deixaram de estudar, minha m\u00e3e deixou de trabalhar e meu pai quase perdeu o emprego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao aperceber-me que minha fam\u00edlia passava, senti-me pior e compreendi que a cadeia n\u00e3o era a cruz mais pesada que tinha a carregar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se por minha culpa acontecesse alguma coisa com algu\u00e9m da minha fam\u00edlia, acredito que hoje n\u00e3o estaria aqui a dar este testemunho porque, de certeza, cometeria suic\u00eddio. Na cadeia pensava como fui capaz de destruir a alegria da minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os dias da minha vida. Lembro-me como se fosse hoje o acto praticado, que de alguma forma, acabou por ressuscitar a minha mente para acreditar que na vida todos deviam ter o direito de uma segunda oportunidade, assim como tenho hoje, o jovem que infelizmente causei a sua morte tamb\u00e9m devia ter essa mesma oportunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante dizer, aqui, que as fam\u00edlias de quem comete o crime n\u00e3o s\u00e3o culpadas, n\u00e3o merecem sofrer ou serem agredidas pelo erro de um parente, uma vez que nunca s\u00e3o elas que cometem e nem incentivam, pelo contr\u00e1rio, at\u00e9 muitas vezes, tentam evitar como foi o caso da minha m\u00e3e.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><b>Minha m\u00e3e \u2018esteve presa\u2019 comigo<\/b><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando fui evacuado para Calomboloca, minha fam\u00edlia n\u00e3o foi avisada. Sem saberem do meu paradeiro ficaram a minha procura durante uma semana nas v\u00e1rias cadeias do pa\u00eds, at\u00e9 que conseguiram encontrar-me em<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Calomboloca. Os respons\u00e1veis dos servi\u00e7os prisionais devem ser mais respons\u00e1veis quanto a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a minha m\u00e3e me visitou pela primeira vez na cadeia de Calomboloca n\u00e3o conseguia lhe reconhecer, ela estava muito magra, parece que tinha perdido 40 quilos. Naquele dia me apercebi que minha m\u00e3e estava presa comigo e estava sofrer comigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao v\u00ea-la comecei a chorar e pedir desculpas pelo crime que cometi e por n\u00e3o lhe ter dado ouvidos. Pela primeira vez, vi minha m\u00e3e a chorar, ela disse-me que perdoava e que eu devia ser forte e mais do que ser forte lutar para sair da cadeia com vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste dia nem consegui diz\u00ea-la que estava doente, pois, a \u00e1gua e a comida me fizeram muito mal. O meu corpo estava cheio de infec\u00e7\u00e3o, era alergia muito forte em todo o corpo. Sou al\u00e9rgico a peixe seco e na cadeia de Calomboloca estavam j\u00e1 h\u00e1 uma semana a cozinhar peixe seco e eu n\u00e3o tinha op\u00e7\u00e3o se n\u00e3o comer para n\u00e3o morrer a fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas depois a minha doen\u00e7a agravou-se, pelo que dei o n\u00famero dela em um visitante que veio ver um preso, e o visitante ligou para ela e, no outro dia, ela veio com os rem\u00e9dios e com o advogado que eles haviam contratado<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>para me defender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias depois minha doen\u00e7a agravou e n\u00e3o tive alternativa se n\u00e3o pedir algu\u00e9m para ligar a minha m\u00e3e outra vez e dar-lhe a conhecer sobre o meu estado de sa\u00fade. Dia seguinte l\u00e1 estava ela com v\u00e1rios medicamentos que me salvou a vida, pois, pensei que iria morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de 8 meses preso me foi dada a primeira c\u00f3pia de acusa\u00e7\u00e3o. Comecei a responder no tribunal do Kilamba kiaxi, em Mar\u00e7o de 2015, isto \u00e9, um ano depois do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tribunal \u00e9 fundamental manter a calma e ser respeitoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele dia o julgamento come\u00e7ou \u00e0s 9h e terminou \u00e0s 15h.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pediram para, na pr\u00f3xima audi\u00eancia, trazer a senhora que testemunhou tudo, aquela a que me referi, inicialmente, que vendia bomb\u00f3 com ginguba, a dona da faca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente n\u00e3o foi identificada porque desde que aconteceu o crime ela ficou traumatizada, sentiu-se culpada por ter deixado a faca na bancada, mudou de bairro e n\u00e3o mais voltou a ser vista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui condenado a 5 anos de pris\u00e3o, no dia 18 de Abril de 2015, na senten\u00e7a o juiz disse que me condenava a 5 anos de pris\u00e3o por ser menor de idade, ser r\u00e9u prim\u00e1rio e ter bom comportamento nos estabelecimentos prisionais por onde passei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de ler a senten\u00e7a, aconselhou-me \u201dvoc\u00ea foi condenado pela pr\u00e1tica deste crime n\u00e3o porque tencionavas pratic\u00e1-lo, creio, e como ficou patente neste tribunal, que \u00e9 um crime em leg\u00edtima defesa, mas esta condena\u00e7\u00e3o de 5 anos \u00e9 para ir \u00e0 cadeia reflectir para depois de cumpri a pena que te foi dada, procurar fazeres qualquer coisa de bom, como voltar a estudar para seres algu\u00e9m na sociedade. E aconselhar aos demais que o crime destr\u00f3i a todos\u201d, depois mandou-me recolher a cela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cumpri toda pena na terr\u00edvel cadeia de Calomboloca, terr\u00edvel porque se existe inferno em Angola \u00e9 bem poss\u00edvel que seja l\u00e1. Quando completei 3 anos da minha pena, minha fam\u00edlia come\u00e7ou a resolver o processo de liberdade condicional, que \u00e9 muito demoroso por capricho dos funcion\u00e1rios e respons\u00e1veis dos servi\u00e7os prisionais, colocaram tanto impasse a partir da cadeia como levar o processo para o tribunal e assinatura do director foi uma eternidade que de tanta burocracia s\u00f3 fui solto depois de cumprir 4 anos, isto em 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convicto que teria uma miss\u00e3o por crime, depois desta triste experi\u00eancia, estou aqui hoje na perspectiva de aconselhar a todos que possam ler este artigo para que nunca cometam um crime que os possa leva-lo \u00e0 pris\u00e3o, pris\u00e3o \u00e9 simplesmente um inferno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde j\u00e1, agrade\u00e7o ao Jornal O Crime pela oportunidade que me concedeu, e espero que tudo corra bem e que este meu exemplo de vida seja uma forma de reconstruir vidas destru\u00eddas pelo mundo do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que me motivou a escrever o que passei dentro da cadeia \u00e9 por n\u00e3o gostar de injusti\u00e7a, explora\u00e7\u00e3o, desrespeito, viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estive na cadeia com ex-militares que sobreviveram na guerra e diziam que a cadeia \u00e9 mais perigosa que a guerra porque te mata psicologicamente e acaba depois com o f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cadeia \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o chorar, mesmo quando se \u00e9 o mais forte espiritual, homens valentes na cadeia perdem coragem de viver, reclus\u00e3o em 4 paredes \u00e9 um inferno. Na calada da noite e na hora matinal o pensamento invade a mente dos reclusos e com ela vem a ansiedade de estar em liberdade, com os familiares e amigos. S\u00f3 conhece o valor da liberdade aquele que uma vez perdeu a sua liberdade. Descrever a sobreviv\u00eancia na cadeia \u00e9 triste e falar \u00e9 doloroso \u00e9 uma experi\u00eancia muito complexa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se soubesse antes de cometer que passaria por aquela situa\u00e7\u00e3o na cadeia n\u00e3o cometeria nenhum delito, por isso me arrependo de ter cometido e espero que ningu\u00e9m mais passe por esta experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar do sofrimento que vivemos \u00e9 uma experi\u00eancia dura e se n\u00e3o for para despertar e motivar outras pessoas n\u00e3o desistirem de seus sonhos e dizer que ainda \u00e9 poss\u00edvel vencer os desafios que a vida nos tem dado n\u00e3o adianta contar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 conta melhor o sofrimento na cadeia aquele que um dia esteve num pres\u00eddio por muito tempo e sentiu na pele a dor do sofrimento ao ponto de pensar em tirar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava abatido, fraco, derrotado pelo sofrimento na cadeia mais n\u00e3o estava destru\u00eddo no fundo do meu \u00e2mago. N\u00f3s sentimos a dor do sofrimento por sermos humanos e porque ainda havia uma esperan\u00e7a que me dizia que tudo poderia passar e deveria recome\u00e7ar a vida. Uns precisam assumir suas perdas e outros precisam recolher os peda\u00e7os que sobraram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Homens carcer\u00e1rios desafiam o sofrimento como no meu caso. Para ser exemplo de supera\u00e7\u00e3o, porque enfrentaram sua pr\u00f3pria ru\u00edna e suportaram a dor da rejei\u00e7\u00e3o e da discrimina\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque voc\u00ea pode esquecer milhares de sofrimentos da vida, mais o sentimento de rejei\u00e7\u00e3o e da dor que passaste numa pris\u00e3o nunca ser\u00e1 esquecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Preferi viver acreditando que era um pesadelo que estava vivendo e n\u00e3o uma realidade nua e crua. Acreditar na realidade era das mais duras dores que possas sentir.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><b>Ganhei o gosto pela leitura na cadeia<\/b><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre me esforcei em sair da cadeia com vida, mas perdi muito tempo que nunca conseguirei recuperar. Apesar de t\u00e3o m\u00e1, mas na cadeia consegui tirar algo de positivo que \u00e9 a leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prendi a gostar de ler, hoje posso dizer sem medo de errar que se n\u00e3o fosse preso continuaria ignorante quanto ao valor da leitura que me deu consolo e esperan\u00e7a de viver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi por meio da leitura que tive conhecimento sobre a exist\u00eancia do Jornal O Crime e do Mariano Br\u00e1s, pois, gra\u00e7as as pessoas que tiveram possibilidade facilitaram a entrada deste jornal na cadeia que comecei a devor\u00e1-lo literalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda preso disse para mim mesmo que, quando sa\u00edsse da daqui, tinha que conhecer pessoalmente o senhor Mariano Br\u00e1s. Admirei a sua coragem de escrever sobre \u00e0 criminalidade no pa\u00eds. N\u00e3o sabia que existia em Angola algu\u00e9m como ele. Quando sa\u00ed da cadeia realizei um dos meus sonhos e, para o meu espanto, ele deu-me uma oportunidade para contar a minha experi\u00eancia e aconselhar as outras pessoas a n\u00e3o se envolverem no mundo do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura do Jornal O Crime devia ser obrigat\u00f3ria em todas as cadeias do pa\u00eds, pois, \u00e9 de extrema utilidade, eles contam as hist\u00f3rias do crime, consequ\u00eancias para quem se envolve no crime e conselhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um indiv\u00edduo que n\u00e3o consegue perdoar, n\u00e3o deve esquecer que esta destruir a porta que um dia vai precisar passar por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque todos n\u00f3s estamos sujeitos a cometer uma atrocidade, mas devemos reconhecer que n\u00e3o devemos optar por esta via do crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso devo advertir a todos os leitores que antes de tomar uma atitude espera e<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>pensa muito porque com a cabe\u00e7a quente n\u00e3o se resolve problemas nenhum. Devemos aprender com erros de outras pessoas e tirar li\u00e7\u00e3o nelas e n\u00e3o errar para aprender com teu pr\u00f3prio erro, como aconteceu comigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Garvey Caro leitor, antes de tudo, pe\u00e7o perd\u00e3o ao povo angolano pelo crime cometido e cumprido nos v\u00e1rios estabelecimentos prisionais de Angola. Sou Jesuino Futila, mais conhecido por Marcus Garvey, nascido em Luanda, aos 13 de Dezembro de 1996, no munic\u00edpio do kilamba kiaxi, bairro Golf1. Nasci e cresci no munic\u00edpio do kilamba-kiaxi, onde acabei por praticar o crime de homic\u00eddio por leg\u00edtima defesa, que me levou a cumprir cinco penosos anos nas cadeias de Angola. Nestas p\u00e1ginas do Jornal O Crime, vou desabar, vou abrir o meu cora\u00e7\u00e3o e contar um pouco da minha hist\u00f3ria, um pouco da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4734,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-4735","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>- Jornal O Crime<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/jornalocrime.com\/ilnes\/4735-2\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"- Jornal O Crime\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Marcus Garvey Caro leitor, antes de tudo, pe\u00e7o perd\u00e3o ao povo angolano pelo crime cometido e cumprido nos v\u00e1rios estabelecimentos prisionais de Angola. 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