Ex criminoso cria associação de combate à criminalidade: HÁ ANOS FORA DO CRIME, JOVEM REVELA: “A CADEIA NÃO ME AJUDOU, PELO CONTRÁRIO, INFLUENCIO-ME MAIS NA CRIMINALIDADE”

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José Gabriel Timóteo Dias, ou simplesmente, “Babiletsa”, de 35 anos, nato do bairro Hoji-Ya-Henda, município do Cazenga, em Luanda, abandonou o crime em 2016 e, desde então, tem inspirado vários jovens, com a criação da Associação Kamabatela, que visa desencorajar os mais novos a enverdarem na criminalidade.

Maiomona Paxe

De coração aberto e como revela, com “paz de espírito”, Babiletsa, conta que a sua transformação deveu-se às mortes de companheiros no crime e a crença de sua progenitora, que incansavelmente, passou em várias igrejas, orando a seu favor.

“Recebi uma iluminação divina”, enfatizou José Gabriel Timóteo Dias, que diz vencer uma luta espiritual, que o garantiu paz de espírito.

Actualmente, membro da comunidade muçulmana, presidente da Associação Kamabatela, pai de oito filhos, fruto de dois relacionamentos, comerciante e empreendedor, com 8ª classe, do ensino de base, com certificação do curso complementar de educador social, concluído na África do Sul. O segundo de seis irmãos, da mesma mãe, de uma família composta por mais elementos, fruto de outros relacionamentos de seu progenitor.

Com tatuagens em distintas partes do corpo, 1,72cm de altura, com aproximadamente 70kg, de peso, José Gabriel Timóteo Dias “Babiletsa”, ingressou na criminalidade, com apenas 12 anos, integrando à um grupo criminal, vulgo “bolão”, com denominação ofensiva, que, devido a moralidade pública não pode ser reproduzida. O aprendizado em artes marciais, nomeadamente o Judô e Karate, o impulsionaram a agir à margem das leis, atravessando uma linha, cujo o fim seria desastroso, colocando de parte, o desejo de ser um artista e fazedor de rap, que, na altura era a sua paixão.

Ainda na fase da puberdade, Babiletsa e seus comparsas, assaltavam armazéns e demais pessoas na via pública. A sua capacidade de análise e execução, o permitiram evoluir, passando de simples marginal à “batuqueiro”, uma transição, que considera um “Upgrade” na carreira criminosa, ou seja, subida de nível, que lhe permitiu conhecer pessoas importantes e viajar para a vizinha Namíbia e África do Sul.

Com 14 anos, roubava viaturas e assaltava bancos. A sua preocupação com a aparência, não despertava qualquer desconfiança nas pessoas, passando uma imagem de alguém pertencente a uma família, com larga disponibilidade financeira. Usava roupas e calçados de alto valor, na época, adornos como mascotes, relógios e placa dentária, todos em ouro. Por outro lado, o nível que atingira no crime organizado, o permitiu conviver com empresários, realizadores de eventos, músicos do estilo Rap e Kuduro.

Neto do malogrado general “Vassoura”, antigo combatente nas fileiras do partido político, Frente Nacional de Libertação de Angola – FNLA, “Babiletsa”, aprendeu a manejar uma arma de fogo, em casa dos avós, tendo adquirido, uma do tipo Macarofe, com 14 anos, sua primeira arma, que, com bastante consternação e arrependimento, relembra ter usado para o cometimento do seu primeiro assassinato. “Fiquei perturbado, era apenas uma criança”, contou.

Durante o seu percurso criminal, o jovem, que actualmente tem inspirado outros jovens a deixar o mundo do crime, passou por várias facções criminosas como os Mbicoyú, os retorno, bula squad e os Barcelona. Este último, mais organizado e com auxílio de advogados, onde em 2016, já transfigurado, deu por encerrado a sua aventura no crime.

Mas, antes, “Babiletsa”, cometeu vários crimes e assassinatos que, consequentemente enlutaram várias famílias. Teve algumas passagens na prisão, com o período mais longo de um ano, entre 2009-2010, na Comarca Central de Luanda – CCL. Porém, nenhuma por assassinato, por ausência de evidências e, inclusive, nunca foi julgado pelo tribunal. Durante o período que ficou privado de liberdade, revela que, “a cadeia não o ajudou a abandonar o crime”, pelo contrário, foi ali, que conheceu outros criminosos que o incentivaram a evoluir nas fileiras da criminalidade.

“Nunca recorri a forças ocultas para cometer crimes”, frisou, acrescentando, que todos os companheiros que o fizeram, acabaram mortos, facto que o deixou bastante reflectivo e que culminou com a decisão de abster-se da criminalidade.

“Recebi uma iluminação divina”, enfatizou José Gabriel Timóteo Dias, que diz vencer uma luta espiritual, que o garantiu paz de espírito. A paz de espírito, a que se refere, o inspiraram na criação da Associação Kamabatela, em 2020, que visa desencorajar jovens no ingresso a criminalidade.

Arrependido de todos os crimes que tivera cometido, o mesmo, segue lutando diariamente, para que mais jovens não se percam na criminalidade e que, principalmente, não causem mais dor às famílias. A bandeira que carrega, é certamente um recomeço de uma vida, que diante de todos julgamentos possíveis, servirá de motivação para todos.

Em suma, como conta, a sua transformação não foi fácil. Para recomeçar, ofereceu às pessoas, todos os bens conseguidos com a actividade criminosa, se dedicando apenas aos biscates e comércio de roupas e telefones. A mudança no seu estilo de vida, afectou drasticamente a saúde económica e consequente baixa na qualidade de vida, que não agradou tão pouco a sua primeira esposa, que o abandonou em seguida, pelo facto do mesmo não lhe puder proporcionar a mesma qualidade de vida, enquanto criminoso.

Contudo, seguiu lutando e com o apoio dos amigos, criou a Associação Kamabatela, que congrega cerca de cinco mil ex criminosos, dos quais, cinquenta com funções específicas. A associação tem sede no bairro Hoji-Ya-Henda, no município do Cazenga e almeja a construção de estabelecimentos comerciais, para empregar os membros e a criação de um estúdio de gravação (Zukas Produções), com intuito de incentivar os mais novos a abandonar o crime e apostar na música.

José Gabriel Timóteo Dias “Babiletsa”, presidente da associação Kamabatela, solicita uma audiência com o presidente da República, João Lourenço. O mesmo afirma que, a sua associação possui soluções credíveis para a redução do índice de criminalidade e, consequente tranquilidade nas ruas.

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