Supostamente protegidos por efectivos do SIC e PNA: Continuam impunes os 4 irmãos que causaram a morte do jovem Teodoro

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João de Deus Oliveira Gomes dos Santos (Leandro), Lucélio dos Santos (Célio), Luís Ivanilson dos Santos (Luís) e Pedro Maninho dos Santos (Maninho) são os quatro irmãos dados como foragidos da justiça por, supostamente, terem sido os causadores da morte do jovem Teodoro Renato da Cunha, de 29 anos.

Por: Engrácia Francisco

De acordo com fontes do Serviço de Investigação Criminal (SIC), já foram emitidos mandados de captura contra os suspeitos, mas que até ao momento não foram localizados. Os familiares do malogrado e amigos suspeitam que os acusados estejam a ser protegidos por altas figuras do SIC e Polícia Nacional.

Por conta da dor causada pela morte de Teodoro, a mãe não conseguiu falar à reportagem deste jornal, cabendo a responsabilidade a Rafael da Cunha, irmão mais velho da vítima, que, embora dominado por profunda tristeza, ganhou forças para explicar detalhadamente as causas da morte prematura do irmão caçula.

Teodoro Renato da Cunha, jovem de 29 anos, esteve durante três dias internado nos cuidados intensivos da Clínica Multiperfil, depois de ter sido torturado alegadamente pelos irmãos Leandro, Luís, Célio e Maninho, no dia 5 de Fevereiro do ano em curso, durante uma festa no bairro Morro Bento, em Luanda.

Rafael da Cunha, irmão da vítima.

“Assim que cheguei à Clínica, domingo de manhã, depois da ligação de um amigo, fui ter com os médicos, que pediram, com urgência, o internamento do meu irmão”, disse Rafael da Cunha.

Entretanto, no dia 8, Teodoro acabou por sucumbir, “vítima de traumatismo craniano, em consequência das agressões que sofrera”, atestou a autópsia realizada pelo SIC, a 10 de Fevereiro.

Comprovativos das transferências feitas por Leandro, para custear tratamento de Teodoro

Ainda segundo o nosso interlocutor, durante o tempo que ficou internado, qualquer um que visse Teodoro conseguia imediatamente notar que havia sido brutalmente espancado.

Neste período, lembrou, os amigos da vítima partilharam consigo o contacto de Leandro, principal acusado, e, quando o contactou, “a primeira vez atendeu uma mulher que dizia não conhecer-lhe. Mas, a seguir, o próprio Leandro retornou a ligação com o mesmo número”.

“Ele confirmou que de facto agrediu o meu irmão na festa, mas que estava muito arrependido e garantiu que iria responsabilizar-se pelos gastos na clínica”, disse.

A partir daquele momento, os dois passaram a interagir via WhatsApp, para abordar o estado clínico de Teodoro e as despesas do tratamento.

Desde as primeiras horas de domingo, 5 de Fevereiro, até terça-feira do mesmo mês, data da morte de Teodoro, Leandro efectuou três transferências bancárias (como se pode ver nas fotos que publicámos), num valor total de 1 milhão, 240 mil kwanzas.

“Eu enviava as facturas e ele fazia as transferências para os pagamentos. Na terça-feira, 5, ele ligou-me pela manhã para saber do Teodoro e pediu que nos encontrássemos para conversar. Ao chegar à clínica, ligou a desmarcar, por questões de serviço. Ele soube antes de todos da morte do meu irmão, por isso desmarcou o encontro”, afirmou, surpreendido.

Rafael disse que, depois da morte de Teodoro, tentou várias vezes contactar Leandro, mas o número deste está desligado até o presente momento.

Teodoro Renato da Cunha ficou três dias internado na Clínica Multiperfil, tendo, no primeiro dia, domingo, apresentado um quadro clínico estável. A noite de segunda-feira foi difícil para o jovem, que teve de ser transferido para a sala de cuidados intensivos, de onde saiu sem vida.

Segundo os familiares, a vítima teve uma fratura na cabeça e em momento nenhum foi submetido à cirurgia. “Ele foi internado por lesões graves na cabeça, segundo disseram os médicos. Mas eles tinham esperança na sua recuperação”, afirmou o interlocutor.

Entretanto, para às 12 horas de terça-feira, 8, estava marcada uma tomografia, pois o médico quis ver se havia melhorias. Por outro lado, avançou a fonte, a mãe pediu, inclusive, que Rafael fizesse uma foto com o irmão no momento do exame, para vê-lo, porque estava muito preocupada.

“Já na hora marcada, os médicos passaram por mim sem dizer uma única palavra. Fui obrigado a ir atrás deles, mas na recepção a enfermeira disse que o meu irmão foi transferido para a área de cuidados intensivos. A médica responsável veio ter comigo a dizer que o sangue parou de circular pela cabeça, mas precisávamos de ter calma”, recordou, sem forças para conter as lágrimas.

“O doutor que recebeu o caso, devido a gravidade, explicou as causas da mudança de quarto. O médico levou-me até à Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) para ver o meu irmão. Ele estava inconsciente. Liguei para o nosso irmão mais velho e uma tia, e, por volta das 15 horas, o médico disse-me que o meu irmão acabou por morrer”.

Familiares desmentem envolvimento da vítima com gangs

Informações postas a circular dão conta que Teodoro da Cunha pertenceu a um grupo de marginais e que, por essa razão, teria sido agredido durante uma rixa entre duas das maiores gangs do país.

Porém, a família de Teodoro garante que o malogrado nunca pertenceu aos HDA, nem ao grupo Alameda Squad. Era, simplesmente, um jovem estudante que nasceu e viveu na Ingombota até a data da sua morte.

“As pessoas querem relacionar o facto dele ter vivido na Ingombota com o ser membro dos HDA, o que não é verdade. Ele nunca pertenceu a grupo nenhum. Mas quem achar que não, pode ir à Polícia consultar os arquivos para confirmar se ele algum dia foi detido por lutar na rua”, declarou Rafael.

“Já estamos a investigar o caso”

Segundo o director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do SIC-Geral, Manuel Halaiwa, já existe um processo aberto para investigar a morte de Teodoro. “O processo já foi aberto e estamos a trabalhar para determinar as causas e circunstâncias da morte”, informou.

O responsável apelou aos envolvidos a não fazer justiça por mãos próprias, pelo que, depois das investigações, os culpados serão levados à justiça.

“Os elementos supostamente enviolvidos na agressão, que resultou em morte, encontram-se em parte incerta. Mas o SIC tudo fará para a devida responsabilidade criminal”, garantiu Manuel Halaiwa.

Leandro, o intocável funcionário da AGT

Leandro Arrop, principal acusado.

João de Deus Oliveira Gomes dos Santos, também conhecido por Leandro Arrop, é funcionário da Administração Geral Tributária (AGT), destacado no Aeroporto Intenacional 4 de Fevereiro.

Ficou conhecido na cidade de Luanda por participar nos concursos de motocross e pertencer ao grupo de marginais Alameda Squad.

Na AGT, este jornal apurou que o mesmo tem vários processos disciplinares, mas nunca foi expulso por ser protegido por uma alta funcionária do Ministério das Finanças, que brevemente publicaremos o nome.

Leandro é visto como um indivíduo bastante violento e que várias vezes aparece armado, apesar de ser civil. Tal aconteceu no caso da agressão que causou a morte de Teodoro da Cunha.

As nossas fontes dizem que, na fuga de Leandro e os irmãos, estão envolvidas altas figuras do SIC e da PNA, que os terão facilitado. Entretanto, este será o primeiro teste de fogo para António Paulo Benje, o novo director-geral do SIC, para mostrar o que veio fazer.

Perfil do malogrado

Teodoro da Cunha, vítima.

Teodoro Renato da Cunha, de 29 anos de idade, nasceu e cresceu na rua Rev.° Pedro Neto, no Kinaxixi, em Luanda. Até a sua morte, o jovem viveu num apartamento do conhecido prédio da Motorola.

Era estudante finalista do curso de Gestão e Administração de Empresas, na Universidade Metodista de Angola, pelo que estava já a trabalhar na sua monografia, cuja defesa estava prevista para Setembro deste ano.

“Até o seu último dia, ele sempre foi uma pessoa calma e amigo de todos. Para quem o conhece, ele quase nunca se envolvia em lutas”, lembra o irmão, com orgulho estampado no rosto.

A família afirmou que nada tem a ver com qualquer retaliação contra os supostos culpados. “Sempre deixei bem claro ao senhor Leandro que nós não estamos envolvidos em qualquer grupo. Somos uma família idónea e estamos focados simplesmente em dar um funeral digno ao nosso ente querido. O caso já está com a Polícia e ele assumiu com arrependimento os seus actos, dizendo que apenas deu um pontapé. Por isso, esperamos que a Polícia realize o seu trabalho e a justiça seja feita”, apelou.

O funeral de Teodoro da Cunha foi realizado no sábado, 12, pelas 10 horas, no Cemitério do Benfica. O malogrado era o filho caçula, entre quatro irmãos.

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