Agentes do SIC-Cacuaco: ACUSADOS DE LIBERTAR CRIMINOSOS EM TROCA DE AKZ 1 MILHÃO

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Numa negociação que durou pouco mais de 15 minutos, uma cidadã, suposta mulher de um comissário da PNA, terá “calado a boca de agentes do Serviço de Investigação Criminal (SIC)”, ao pagar 1 milhão de kwanzas para retirar o seu nome de um processo em que figura como a mandante e compradora de diversos produtos roubados de um armazém.

 Por: Costa Kilunda

Fernando Lucas, Fidelino Mário Gastão e outro comparsa, apenas identificado por Osvaldo, são um trio de marginais que, segundo consta, engendraram e assaltaram um armazém de venda de produtos alimentares diversos no passado dia 9 de Setembro, no bairro Vidrul, município de Cacuaco.

Todavia, depois de uma investigação minuciosa dos Serviços de Investigação Criminal (SIC), que culminou com a identificação e detenção dos mesmos, os supostos assaltantes foram submetidos a tortura e, por fim, confessaram a autoria do crime, assim como denunciaram, às autoridades, a suposta mandante e compradora dos bens roubados.

Mas a quadrilha não ficou pela denúncia da alegada autora moral do crime, bem como conduziram os investigadores até à moradia desta, localizada nos arredores da casa militar, no Kikolo. De acordo com um áudio a que ‘O CRIME’ teve acesso, as provas do crime foram encontradas na residência da aludida senhora, num total de 102 (cento e duas) caixas de Óleo de Palma, 8 (oito) sacos de Arroz, 2 (duas) caixas de Whisky e 1 (uma) caixa de sumo Compal.

No entanto, ouve-se, os bens apreendidos não retornaram ao armazém, de onde saíram ilicitamente, tão pouco deram entrada na unidade policial a fim de serem catalogadas e fazer-se constar dos autos de apreensão.

De acordo com um dos marginais, como é possível ouvir-se no referido áudio, para além dos bens acima mencionados, os investigadores do SIC encontraram ainda avultadas somas em dinheiro. “Logo empurraram-nos para fora e nos mandaram para o carro com objectivo de melhor negociarem com a senhora”, denunciou um dos suspeitos, para depois dizer que o montante pago aos agentes terá rondado os um milhão de kwanzas (AKZ 1 000.000.000.00), numa negociata que durou cerca de 15 minutos.

Ainda no mesmo áudio, é possível ouvir a voz de um alegado efectivo do SIC a orientar os colegas a dizer que a mesma cidadã é esposa de um comissário da PN. “Digam que o marido dela é um comissário da Polícia Nacional”, ouve-se. Ademais, denunciam, os supostos assaltantes, quando regressaram à esquadra foram, minutos depois, coagidos a assinar um documento cujo conteúdo era por eles desconhecido.

Seguidamente, depois da assinatura do referido documento, foram colocados em celas separadas. “O Osvaldo e eu (Fernando Lucas), fomos colocados na mesma cela, porquanto o Fidelino Mário Gastão, por não colaborar, foi transferido para a Divisão Municipal de Cacuaco, onde permanece até a presente data”, prossegue a gravação.

“Ali houve negócio rijo”, afirma suposto meliante

De acordo ainda com a mesma gravação, para o sucesso da operação, os alegados marginais usaram armas de fogo, do tipo AKM, em quantidade não mencionada, alugadas no valor de AKz 300.000.00 (trezentos mil kwanzas), bem como uma carrinha de marca Toyota, modelo Hilux, para o transporte da mercadoria roubada.

“Ali ouve negócio rijo”, diz um dos suspeitos, fazendo alusão ao acordo entre a suposta mandante e os agentes do SIC. Por outro lado, denunciaram que os mesmos agentes tinham apreendido, inclusive, o telefone da senhora, mas que o alegado esposo desta, “por gozar de influência”, deslocou-se até à esquadra onde, inicialmente, estavam detidos, no bairro da Vidrul, e levou de volta o telefone consigo.

“O meu irmão não é visto há quase dois meses”

Entretanto, António Muxito, irmão mais velho de Fidelino Mário Gastão, o único elemento do bando que continua detido desde o pretérito dia nove de Setembro até a presente data, disse que há quase dois meses que não se sabe o paradeiro do irmão.

Em entrevista à nossa reportagem, contou que os demais membros da quadrilha estão agora em liberdade, estranhamente num momento em que o processo-crime, acoberto do número 7884/20, já estava sob domínio da PGR junto do SIC-Cacuaco.

“Depois da negociação entre o SIC e a senhora, um dos agentes sugeria aos seus companheiros que colocassem todos os assaltantes em liberdade, alegando que por terem chegado a um acordo com a compradora, diriam aos seus superiores que nada foi encontrado em posse da mesma”, contou o jovem, sublinhando que um dos agentes retorquiu, “não, vamos mantê-los presos”.

A fonte disse estar preocupado com o sumiço do irmão, o único sacrificado para justificar o trabalho realizado pelas forças castrenses. Por outro lado, afirmou ter contactado o instrutor processual, que o informou que o proprietário do armazém nunca teve de volta os bens roubados, já que o acordo feito permitiria a libertação dos suspeitos caso os bens roubados fossem restituídos.

“Não nos permitem visitá-lo. A única coisa que faço é saber junto do piquete se o nome consta da lista dos detidos, para todos os dias levar-lhe comida”, notou.

De referir que a nossa equipa de reportagens tentou contactar o investigador João Saldanha, director do Serviço de Investigação Criminal junto da Divisão Municipal de Cacuaco para possíveis esclarecimentos sobre o assunto, mas não teve sucesso.

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