Luto no Motocross: CAMPEÃO DA CLASSE DE 150cc MORTO A TIROS POR AGENTES DA PNA

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Declénio de Carvalho, de 19 anos, antigo campeão de motocross da classe dos 150 centímetros cúbicos, foi alvejado mortalmente, no sábado, 12 do mês em curso, por agentes da Polícia Nacional, destacados no posto policial da Madeira, no bairro Cassequel do Buraco, distrito urbano da Maianga, em Luanda.

Por: Engrácia Francisco

Em companhia de Declénio Carvalho, ou simplesmente ‘Dé’, estava Omar Francisco, seu amigo, de 17 anos de idade, que foi, também, alvejado no pulso esquerdo, mas se encontra bem.

O caso se deu por volta das 22 horas, num momento em que Dé e Omar, em uma motorizada, saíram da casa onde o malogrado residia com a mãe, onde se encontrava a conviver, para ir ao encontro de um amigo que se havia ausentado e tardava regressar.

Durante o percurso, de acordo com relatos de Omar Francisco, em entrevista ao jornal O Crime, ter-se-ão deparado com duas viaturas patrulha da Polícia Nacional, nas imediações do mercado da ‘Teixeira’, que perseguia supostos meliantes que tinham acabado de efectuar um assalto na via pública. “Mandaram-nos parar, mas o Dé não parou”, explicou o adolescente, acrescentando que, ao invés disso, o amigo decidiu colocar em evidência as suas habilidades de competidor do motocross para despistar os agentes.

Acto contínuo, prosseguiu Omar, como já era tarde e Dé não dominava bem o bairro, rapidamente foram alcançados pelos agentes que, sem hesitar, efectuaram vários disparos contra si e o amigo. “O Dé foi atingido nas costelas e no lado esquerdo do peito e eu, no pulo esquerdo. Após os disparos, alguns agentes aproximaram-se de nós, mas, em seguida subiram nas viaturas e foram-se embora, abandonando-nos no local”, afirmou, para depois lembrar que ele, Omar, reconheceu um dos agentes, colocado na esquadra móvel do Cassequel.

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No entanto, Omar afirmou que depois que os agentes se foram embora, sem prestar qualquer auxílio, correu à casa, contando aos demais o que se lhes havia acontecido. Enquanto isso, o seu amigo, ainda no local, lutava pela vida. “Quando voltamos ao encontro dele, o encontramos ainda em vida e, logo, levamo-lo até ao Hospital do Prenda, onde veio a falecer minutos depois”, recordou, angustiado, sublinhando que o amigo terá sido negligenciado pelo corpo clínico daquela unidade hospitalar.

No dia seguinte, Omar e alguns familiares do malogrado dirigiram-se à unidade policial móvel de que havia falado e encontraram o graduado em serviço, sendo aquele, alegadamente, o agente que reconhecera na incursão em que seu amigo perdeu a vida. Todavia, prosseguiu, o citado agente negou que participou da operação. “Até o próprio comandante negou tudo, dizendo que ele não saiu da esquadra neste dia”, lastimou Omar.

O jornal O Crime contactou o director do Gabinete de Comunicação e Imagem do Comando Provincial da Polícia em Luanda, Nestor Goubel, para mais esclarecimentos em relação ao caso. O responsável confirmou a ocorrência, bem como o envolvimento de efectivos da Polícia Nacional na referida operação, tendo, inclusive, adiantado que não há, ainda, nenhum detido.

Entretanto, esclareceu que já foi aberto um inquérito, acoberto do processo-crime número 11767/020 – DH, para se apurar os factos que estiveram na base da morte, a tiros, por agentes da corporação, do antigo competidor e campeão de motocross na categoria de 150 centímetros cúbicos, Declénio Carvalho, de 19 anos.

Por outro lado, soube ainda O Crime, na versão da Polícia Nacional, tratava-se de dois supostos marginais que acabavam de protagonizar um assalto na via-pública, com recurso à arma de fogo. Entretanto, este argumento não colhe perante os familiares e amigos das vítimas.

“Mataram o sonho do meu filho”

“Eu criei um grande filho, nunca se envolveu em actos criminosos, para que a PN diga que era meliante, sendo que nem sequer consegue dar a cara, a fim de assumir o crime”, lamenta Evandra de Carvalho, a mãe do malogrado, que exige agora justiça pelo filho, vociferando, depois, “o Dé era o meu pilar! Quero olhar na cara dos agentes que fizeram isso com o meu filho, quero poder entender as razões que lhes levaram a matá-lo!”.

 Visivelmente magoada, e sem esconder as lágrimas que lhe escorriam o rosto, Evandra de Carvalho ressalta as qualidades do filho, sublinhando que perdeu um grande homem. Aliás, recordou que foi com bastante sacrifício que Declénio Carvalho conseguiu concretizar o sonho de competir na mais alta roda dos desportos motorizados no país, sendo um dos poucos atletas que, em tão pouca idade, conseguiu sagrar-se campeão na categoria dos 150cc.

Ademais, elucidou, no último domingo, dia 22, teria participado da corrida que o consagraria como campeão da categoria para a época 2019/2020.

De realçar que Declénio de Carvalho começou a correr desde os 10 anos de idade e, em nove anos de carreira, coleccionou vários prémios.

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