“AS VÍTIMAS DA FEITIÇARIA”

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Segunda Amões, empresário, falecido recentemente na África do Sul, Estanislau Rúben, antigo Comandante da Polícia Nacional no município do Belas, e o camponês João Lucas, enterrado vivo no Icolo e Bengo, são apenas algumas das vítimas, cujas vidas foram ceifadas em nome de um obscurantismo senso de bem colectivo, depois de serem acusados de práticas ocultas.

Por: Costa Kilunda 

Os três casos têm alguma similaridade, pois, as mortes destes cidadãos estão, de algum modo, “ligadas a práticas ocultas”.  A começar pela vítima mais fresca, o cidadão que em vida atendia pelo nome João Lucas, de 59 anos, camponês, residente na aldeia de Mbanza Caculo Cazongo, município de Icolo e Bengo, na província de Luanda.

O homem, segundo apurou O Crime, foi enterrado vivo, no passado dia 10 de Dezembro, quinta-feira, na sequência de uma acusação de feitiçaria, pela morte de um jovem, na mesma aldeia. Segundo se soube, o jovem, apenas identificado por “Prata”, que padecia de diabete aguda, há pouco mais de nove anos, como se veio a saber mais tarde, teria, supostamente, defecado na casa, em construção, do mais velho João Lucas, tendo vindo a falecer dias depois.

Segundo uma testemunha, que relatou os factos à nossa equipa de reportagem naquela localidade, quando viu o seu nome envolvido na morte daquele jovem, João Lucas dirigiu-se a unidade policial local, mormente na comuna do Cassoneca, que dista há, aproximadamente, 8 KM da sua zona de residência, para participar o assunto. Mas, para o seu espanto, foi informado que tal problema era, na verdade, da alçada das autoridades tradicionais e não da Polícia Nacional.

Em sequência, o homem acatou o conselho dos agentes da Polícia e dirigiu-se ao sobado,  onde participou o assunto, tendo ali recebido a resposta de que “o problema só seria resolvido após a realização do funeral”.

No entanto, quem não tinha a mesma paciência foram os familiares de “Prata”, que arrancaram o cidadão da sua residência e resolveram enterrá-lo, vivo, no mesmo túmulo em que o seu ente fora sepultado. “Colocaram-lhe em baixo e por cima dele pousaram a urna”, lembrou a viúva do velho, Maria Eurico João.

Aliás, contou a viúva, João Lucas não escapou da pancadaria, antes mesmo de o colocarem no buraco. “Bateram-lhe com paus, ferros e outros objectos, até perder os sentidos”, disse, acrescentando que antes mesmo de o terem colocado no buraco, ela, viúva, e outros parentes seus, informaram às autoridades o que a outra família estava prestes a fazer, mas estes apenas se dirigiram ao local do óbito um dia após a realização do funeral.

Postos lá, disse, os agentes do SIC limitaram-se a efectuar a exumação, e, posteriormente, entregaram o cadáver à sua família para dar um funeral condigno.

Com relação aos executores deste bárbaro acto, infelizmente ninguém foi detido, estando todos nos seus respectivos aposentos, por essa razão Maria Eurico João, a viúva, diz temer pela sua vida, já que o esposo era o parente mais próximo que tinha na localidade.

Por outro lado, disse que tais práticas são recorrentes na circunscrição, lembrando que, há aproximadamente três semanas, um caso idêntico aconteceu, estando um dos familiares do jovem morto envolvido no caso.

Maria, que lamenta pela morte do marido, refere que aquele foi vítima de uma cabala, já que era, na zona, o único membro do partido UNITA e que, por causa disto, havia criado muitos inimigos.

“Empresário Segunda Amões terá sido vítima de feitiçaria”

O até então líder do grupo Valentim Amões, o empresário António Segunda Amões, que faleceu recentemente na África do Sul, por prolongada doença, terá sido, segundo relato de alguns familiares, vítima de alegadas práticas de feitiçaria. Segundo apurou a nossa equipa de reportagem, ao empresário terá sido “lançado uma gangrine”, uma “mina tradicional vulgarmente conhecida como Tala”, cuja medicina convencional é incapaz de curar.

Na sequência da morte do empresário, alguns dos seus familiares realizaram uma “caça às bruxas” na província do Huambo, que culminou, segundo informações, com a morte de um cidadão, alegadamente envolvido na morte, e outro que terá ficado gravemente ferido.

Por tais actos, soube O Crime, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) em coordenação com a Polícia Nacional no Huambo, município de Cachiungo, despoletou uma acção que resultou na detenção de oito (8) cidadãos, com idades compreendidas entre os 29 e 37 anos, acusados de agressão.

Os oitos elementos estão detidos por espancarem gravemente um cidadão nacional, solteiro de 66 anos e, em acto contínuo, atearam fogo sobre outro que conheceu a morte no mesmo instante, por supostamente ter sido um dos mentores da morte do empresário.

Referir que os acusados não só assassinaram o infeliz, como também arrombaram a residência de um segundo cidadão, tido pelos mesmos como feiticeiro, onde subtraíram, para além de uma motorizada de marca LingKen, AKZ 250.000.00 (duzentos e cinquenta mil kwanzas). Os implicados já foram presentes a um procurador, que ordenou a sua manutenção sob custódia.

António Segunda Amões nasceu em Fevereiro de 1969, na aldeia Camela, província do Huambo. Formou-se em Geologia e Petróleo, na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), cidade de Baku, entre 1986 a 1991. O malogrado era irmão de Valentin e Faustino Amões.

Ainda sobre a mesma prática, morreu, no passado dia 6 do corrente mês, o Comandante da Polícia Nacional no municipal de Belas, Estanislau Rúben.

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