HOSPITAIS MATERNO-INFANTIS CONTINUAM SEM MATERIAIS DESCARTÁVEIS

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Passado alguns meses desde que este jornal descreveu a situação precária dos hospitais públicos, a falta de materiais descartáveis é uma realidade que parece longe de ser resolvida, usando-se ainda sacos no lugar de luvas.

Honorina Kiampava

No início, como quase tudo, era uma maravilha na maior maternidade de Luanda. “Há alguns anos, as condições eram excelentes, não precisávamos pedir às gestantes que trouxessem alguma coisa de casa para serem atendidas com higiene. Os anos foram passando e a situação foi ficando mais apertada. Os materiais passaram a ser escassos, razão pela qual, vários hospitais públicos usam sacos plásticos no lugar das luvas”, descreve Francisca Jacinto, parteira na Maternidade Lucrécia Paim há mais de 18 anos.
A falta de materiais descartáveis pode provocar desestabilidade em qualquer unidade sanitária. As luvas, por exemplo, estão a ser substituída por sacos plásticos, sendo que tal situação, que o Governo prometeu resolver, perdura há muitos anos, e as reclamações somam, tanto por parte das funcionárias quanto das pacientes.
Adelina de Castro, de 19 anos, encontra-se grávida de oito meses, do primeiro filho, e já sabe que, na altura do parto, terá que levar luvas, se quiser ser atendida devidamente, e pagar uma “gasosa” para a parteira. “Antes das consultas, há reuniões matinais onde nos passam toda essa informação, por isso, muitas preferem dar a luz em casa ou num posto médico, onde, o tratamento é bem melhor”.
A paciente conta que os sacos plásticos usados não são devidamente higienizados e passam de enfermeira a enfermeira. “Não há cuidado quanto à esterilização dos plásticos, e isso causa preocupação, principalmente em gestantes como eu. Umas, sem condições, submetem-se a isto e acabam com infecções vaginais ou algo do gênero… a verdade é que esse dilema precisa ser resolvido com a máxima urgência”, solicita.
Lucrécia Paim é das mais antigas maternidades angolanas, mas ainda carece de muita coisa. Fora os materiais não reutilizáveis, o Centro Materno-Infantil, hoje, recebe um elevado número de pacientes, pelo que não há espaço suficiente para atender a demanda. São cerca de 2000 camas para mais de 3000 pessoas, sendo que a maioria das pacientes acaba sendo internada por algum motivo.
O excesso de pacientes tem dificultado o trabalho do pessoal clínico. “Há gestantes que nos dão muito trabalho, principalmente no momento do parto, a maioria delas é adolescente e mães de primeira viagem e ainda não sabem como lidar com a situação”, diz Francisca Jacinto.
A história repete-se na Maternidade Augusto Ngangula, onde as reclamações fazem parte do dia-a-dia das funcionárias daquela unidade sanitária. Priscila Mariana, de 30 anos, conta que o centro tem a má fama de as parteiras serem rudes e malvadas. “Nos obrigam a comprar luvas e, mesmo quando compramos, insistem em usar embalagens, não podemos reclamar, caso contrário, nos abandonam no consultório… se for no parto, és obrigada a limpar o sangue e todos os resíduos que liberamos”.
A equipa de reportagem tentou falar com algumas parteiras e com a direcção do hospital, mas nenhum dos membros supra citados mostrou disponibilidade para uma entrevista, porém, o desejo de todos é que o Estado melhore as condições de serviço, para que se evite males maiores, tanto para as funcionárias quanto para as utentes.

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