Os hospitais estão em bom estado de funcionamento?: QUANDO UM PRESIDENTE NÃO CONHECE O PAÍS QUE DIRIGE

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A deficiência dos serviços sanitários em Angola é uma realidade insofismável, senhor presidente, não obstante ter negado, na passada quinta-feira, 26 de Novembro, enquanto conversava com os jovens, em Luanda. A verdade é que, pelo menos para a maioria dos hospitais públicos, há dificuldades de várias ordens, mormente a má alimentação para funcionários e pacientes, a gritante falta de quadros e de materiais gastáveis.

Olga da Silva e Jaime Tabo

Tudo isso não é por uma questão de capricho dessas pessoas, que não entendem que os seus estão bem entregues às mãos dos profissionais de saúde, porque, na verdade, não estão. Acredite, senhor presidente, todos eles gostariam de dormir no conforto de suas camas e tranquilizados de que aqueles seriam atendidos, pelo menos, para as necessidades mais básicas.A nossa equipa de reportagem começou por visitar o exterior do Hospital Américo Boa Vida, onde se vê, a escassos metros da entrada, muita movimentação de pessoas, entre pacientes, acompanhantes e vendedores ambulantes. Será que o presidente sabe que as famílias dos pacientes dormem ali, ao relento, para acudirem a qualquer situação que os seus entes venham a passar?

Exemplo das vicissitudes por que passam o povo angolano nos hospitais públicos são de mão cheia eis o caso de um menino de 10 anos, chamado Rogério Paulino, que está internado no Hospital Américo Boa Vida por sofrer de onfalocele. É um rapaz cheio de vontade de viver, mas ele está a morrer, com os intestinos fora e, desde Maio, não foi operado, porque o médico viajou para Cuba, por conta da pandemia e, ao que parece, ainda não voltou!

Será que os hospitais que o PR encheu o peito dizendo funcionarem sem problemas, não podem realizar um tratamento mais célere? É que, é uma vida, entretanto, o mais grave é que, após os pais do pequeno Rogério socorreram-se à media para pedir socorro, os médicos ficaram revoltados e estão a fazê-lo pagar.

Ou seja, eles não tocam em Rogério, sua mãe é quem tem a obrigação de o tratar (que para ela é mais um prazer, pelo seu imenso amor), até mesmo segurar em embalagens para devolver os órgão do seu pequeno no interior. É lastimável, senhor presidente, nós repugnamos esse comportamento dos médicos.

Portanto, não é insistência do povo, é que a morte acelera, se abandonarmos os nossos dentro destas unidades. Ademais, senhor presidente, as enfermeiras não dão banho aos pacientes pela manhã, nisso, é necessário que um familiar se camufle, pelas 5 horas da manhã, para tratar da higiene pessoal deste e, inclusive, levar-lhe comida, porque, o senhor presidente deve saber, a alimentação dos nossos hospitais é muito pobre, isso, nos poucos que fornecem.

Se não souber, deixe-nos dizer que, pelo menos, uma maçãzinha não consta do cardápio. As frutas não são os melhores aliados quando se está doente? Pois é… o senhor presidente vai perguntar por sumos? É melhor não. Nós até temos chá, mas, senhor presidente, pergunte, por favor, a um médico, quanto tempo um chá transparente, parecido à água, deve demorar no organismo até à próxima alimentação…

Bem, senhor presidente, vamos entrar, nos desculpe a ladainha acima, é que não percebemos como conceber que os serviços sanitários no país estão em bom funcionamento…

Vê este amontoado de pessoas na luta para entrar, senhor presidente? Será que eles não entenderam que não deve haver ajuntamento de mais de cinco pessoas? O senhor presidente consegue contá-las? Bem, nós também não conseguimos, mas são dezenas perfiladas.

Os guardas não foram orientados a não permitir esse ajuntamento ou eles não conseguem travar esse povo teimoso? Senhor presidente, deixe-nos confidenciar uma coisa: aqui não acreditam que a covid-19 existe. O senhor sabia disso? Pois é… eles dizem “na televisão estão a nos mentir… dizem que são mais de 15 mil infectados, mas nunca vi nenhum vizinho meu a morrer, são mentirosos”!

A propósito disto, senhor presidente, não acreditamos que eles desejem que seus vizinhos ou familiares morram, mas a covid-19 é uma realidade que eles não vêem e aqui dão uma de Tomé, aquele discípulo de Jesus que não esteve presente quando Ele apareceu aos restantes, depois de morto na cruz.

O que se pode fazer então? Alguns países já deixaram o seu povo à sua sorte, num “façam o que quiserem, já fizemos a nossa parte”. Não queremos insinuar a nada, senhor presidente, mas na prática, aqui no país, já estamos assim. O senhor presidente, alguma vez, foi ou ouviu um relatório dos mercados informais?

Olhe, senhor presidente, o game aí está violento. Se tiver alguma disponibilidade, estamos prontos para lhe fazer uma visita guiada… vamos ao mercado do Kicolo, ao Hoji-ya-Henda, 30, entre outros. Nessa época festiva, a situação vai piorar e, ainda assim, eles não verão a vizinha de bancada, que trabalha sem máscara e está bem junta a outra, a desfalecer por covid-19.

Voltemos ao Américo Boavida, nos desculpe uma vez mais, é que queremos aproveitar tamanha oportunidade de lhe falar, senhor presidente.

Senhor presidente, estamos num hospital de referência nacional, entretanto, entramos e não nos mediram a temperatura, não lavamos as mãos e sequer passaram-nos álcool em gel, as medidas de biossegurança que, volta e meia, são orientadas pelas autoridades! Como pode, senhor presidente? Justamente no Américo Boavida?

Senhor presidente, as mais pequenas instituições, até mesmo cantinas de “mamadus”, estão a cumprir com essas medidas. Como se explica agora? As pessoas entram e saem como se não estivéssemos a viver um período pandémico e avassalador! Nossa Senhora nos acuda!

Bem, senhor presidente, como o senhor não pode aparecer aos olhos de todos nem conhecer as condições dos hospitais nas vestes de Presidente da República, porque, acredite, se assim for, até o chão da casa de banho estará de lamber, nós iremos falar com aquele grupo de enfermeiros que vê lá no Banco de Urgências, para obtermos alguma informação…

O cenário lá é de pessoas tristes, com olhares cansados e sonolentos, acusando fadiga, pois disseram-nos que estão a longas horas esperando pelo atendimento.

“A alimentação aqui é humilhante, aquilo é mais água do que sopa, pode gerar mais complicações à saúde do paciente”, afirmaram eles, senhor presidente, e acrescentaram que, não poucas vezes, trabalharam a noite toda em jejum, por falta de uma alimentação condigna naquela unidade. De acordo com estes, a refeição tem causado transtornos no decorrer do trabalho, sendo que, em alguns casos, acaba gerando dor de barriga. Por outro lado, confessaram que, quinzenalmente, recebem apenas uma máscara facial.

Senhor presidente, eles não mentem, vox populi, vox Dei

Passemos aos utentes e procedamos do mesmo jeito, senhor presidente, pese embora o povo seja mais sincero, comparativamente aos funcionários, se percebessem que é o senhor João Manuel Gonçalves Lourenço aqui no hospital.

Tudo o que eles clamam é por um atendimento mais humano e célere. Paulina Valquíria e Bruna Silva acorreram ao hospital pelas 11 horas, juntas da sua irmã, que se queixava de fortes dores de cabeça, ocasionando-lhe desmaio. No entanto, de uma enfermeira ouviram a resposta de que a classe está em grave e o Banco de Urgência não está a funcionar plenamente.

Mas, felizmente, confessaram elas, por influência foram atendidas, mas apenas três horas depois. Senhor presidente, aqui, ou corrompe-se ou perde-se quem amamos.

Clemente João é um jovem que vive nos Mulenvos de Baixo, município do Cazenga, e, no dia 25 de Novembro, acompanhava o seu irmão, de 13 anos, depois deste sofrer uma fractura na perna esquerda. Entretanto, o adolescente não foi atendido e teve de passar a noite sozinho e sem comer, pois não foi permitido que os familiares estivessem com ele.

Somente no dia seguinte foi visto, pelas 12 horas e, após tratamento, receberam orientação para voltarem na segunda-feira para a revisão, porém, no dia marcado não foram atendidos, por muita enchente. Senhor presidente, como estará o pé daquele miúdo?

Agora com o GPS no Hospital Geral de Luanda (HGL), encontramos a senhora Isabel Francisco, que nos contou que acorreu àquela unidade às 21 horas do dia 29 de Novembro, junto da sua mãe, anciã de 80 anos, que teve uma fractura no braço direito.

Isabel lamenta o facto de a sua progenitora ter passado a noite na cadeira, sem que recebesse qualquer tratamento, pois os profissionais foram dormir, deixando os pacientes no Banco de Urgência sem assistência. Ela não sabe a razão pela qual não foram atendidas durante a noite, mas revela que o banco estava cheio de pessoas feridas e os técnicos em serviços mostravam-se muito cansados.

Mas, senhor presidente, no meio de tantos lamentos, um jovem, que acompanhava sua esposa à maternidade, teve a felicidade de ser atendido em tempo record de trinta minutos. Isso é motivo de grande alegria, porque é uma normalidade anormal na nossa realidade!

Mas como estávamos a falar de mera sorte, Altino Roberto, outro jovem que buscava pelo mesmo serviço, expressou, claramente, a sua indignação “até para entrar no hospital tive de pagar a um segurança. Desde ontem à tarde até às 14 horas de hoje (30/11), ninguém passava informação sobre minha esposa, somente depois é que me disseram que ela precisa de sangue! Isso é brincadeira… estou aqui e nem sei qual é o estado da bebé que acabou de nascer, porque não me deixam vê-la!”.

Senhor presidente, o senhor é pai, olhe para esta angústia gritante… senhor presidente, isto é o normal dos nossos hospitais! Como pode, um sistema assim, ser bom?

Enquanto falávamos com aquele pai, duas pessoas eram, apressadamente, empurradas em macas, pelos seus familiares, para o Banco de Urgência. Não tardou, uma jovem acompanhante saiu, proferindo palavras ofensivas contra enfermeiros e médicos em serviço, por não assistirem, imediatamente, o seu doente em estado grave, por alegadamente estarem a limpar o chão. “ Por##, isso é vida! Po##, vida não se compra, pessoa está na maca e dizem que estão a limpar, estão a limpar o quê? Filhos da ## ”.

Poucos minutos depois, anunciava-se a morte do seu familiar. Gritos, choros e prantos era a realidade que se vivia. Senhor presidente, foi de rachar a alma… uma vida se foi assim… pela demora ou não no atendimento ao paciente, a verdade é que ele não teve direito a pronta assistência médica e medicamentosa.

Cidadãos podem morrer por falta de consultas

Cidadãos nacionais ou estrangeiros, que buscam por serviços públicos de saúde, podem perder a vida, devido ao cancelamento das consultas médicas, nos principais hospitais da capital, desde o aparecimento da pandemia da Covid-19 no país.

No Hospital Maria Pia, muita gente procura por uma consulta, mas se confronta com o cancelamento do serviço. Por isso, um cidadão que levava o seu filho para uma consulta de cardiologia disse “meu filho está com problemas do coração e dizem que não podem atender, por não ser grave! Quando a situação se agravar, não vão conseguir tratar e ele pode morrer, assim é bom?”, questionou, com tristeza no olhar.

No entanto, muitas pessoas estão a ver o seu estado de saúde a piorar por conta do cancelamento das consultas. Agora, segundo alguns, encontrados naquele hospital, ao invés de tratarem quem se sente mal, deixam primeiro a pessoa piorar para mandarem ao banco de urgência.

Senhor presidente, está, agora, quase tudo a funcionar, como este serviço essencial não?

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