Enquanto uma criança luta pela vida: MÉDICOS DO AMÉRICO BOAVIDA ‘VINGAM-SE´ DA FAMÍLIA POR BUSCAR AJUDA NA MEDIA

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Rogério Paulino é uma criança de 10 anos, cuja vida pode conhecer o seu fim, tudo porque, sofrendo gravemente de Onfalocele e ignorado pelos profissionais do Hospital Américo Boavida, a família, desesperada, recorreu ao jornal O Crime e à Record TV África para pedir ajuda. Por esta razão, o menino sofre banalização por parte da equipa médica.

Por: Honorina Kiampava

“Por que negar assistência médica a uma criança que pode estar à beira da morte?”, perguntam, de forma incansável, os pais do menino que vivem um desespero sem precedentes.

Após a entrevista concedida ao jornal O Crime, publicada na sua edição 115, a família do pequeno Rogério recorreu, igualmente, ao programa JR Africa, da Record TV África, para intensificar a expansão do pedido de ajuda.

Reportado o caso nos dois meios de comunicação massiva, os médicos tomaram conhecimento e, num comportamento adverso ao que Hipócrates quis que todos os profissionais da Medicina levassem a peito no seu dia-a-dia, encheram-se de fúria.

Se não, vejamos… Salomão, pai de Rogério, regressou ao hospital para saber em que pé se encontrava o caso do filho, que aguarda pela cirurgia desde Maio último, porque o médico (de nacionalidade cubana), que a faria, está fora do país, quando, surpreendentemente, um dos médicos lhe respondeu: “vocês foram se queixar, agora vão dançar a nossa música… testem o menino à Covid 19, quando o resultado sair, será chamado para a cirurgia”!

Ou seja, Rogério, que apesar de sentir dores infernais, derivadas do facto de os intestinos estarem já fora do organismo, ainda sorri para a vida, depende do resultado negativo do teste à covid-19, que foi realizado à sorte da família, para, então, aqueles que um dia juraram salvar vidas tocarem-no as mãos. Enquanto isso, é só mais um na lista de espera.

Realizado o teste, há mais de duas semanas, não se sabe, por enquanto, o resultado, ao passo que o de um outro menino, que tem a mesma patologia e realizaram ao mesmo tempo, já saiu. Por essa razão, Rogério não subiu ao bloco operatório, enquanto verá o “companheiro de sofrimento” a ser levado para cirurgia na próxima semana.

“Se tivesse que pedir alguma coisa, seria, simplesmente, que me operassem logo, quero voltar a jogar bola, pular sem medo e ir à escola”

Comprometidos com o caso, o jornal O Crime fez-se ao Hospital Américo Boavida, no dia 03 do mês em curso, onde Rogério está internado, há uma semana, depois de ter graves sangramentos, por conta de uma pancada não propositada.

Logo à entrada da sala 209, no segundo andar, área de Pediatria Cirúrgica, encontramos a mãe do menino, Joaquina Paulino, estendida ao chão, parecendo a dormir, mas, de forma atenta, percebe-se que estava a orar… não é preciso mágica para saber que pedia pela saúde do filho.

Terminada a oração, olhou para nós e, emocionada, exclamou: “Deus ouviu as minhas orações! Obrigada pelo carinho e atenção que estão a dar ao meu pequeno”. Enquanto isso, Rogério fazia a segunda refeição do dia, nada mais, nada menos que um dos seus pratos predilectos: arroz e feijão preto.

Quando ele terminou, saiu da cama, a coxear e com o ferimento aberto, com os intestinos, praticamente, fora, caminhou, de forma forçosa, ao nosso encontro, pegou numa cadeira branca e sentou-se connosco.

Em uma conversa descontraída, Rogério contou-nos quem ele é, em meio a uma alegria que contrasta em muito com o seu estado de saúde. “Sou um menino de 10 anos, que sonha em ser um grande jogador de futebol… gosto de estudar, brincar, ver desenhos animados (Dragon Ball, Oliver e Benji, Pocoyo e Naruto)”, apresentou-se o pequeno.

“Antes me sentia mal, por causa da minha doença, não saía, ficava trancado em casa com os meus pais, me tratavam muito mal, sofria bullying por parte de alguns colegas meus, até quando saí da escola… mas agora já fico com os meus amigos, eles me visitavam, quando ainda estava em casa”, desvenda-nos a sua vivência.

Sobre o hospital, disse, abalado: “até mesmo os médicos já não aceitam segurar- me, sentem nojo da minha ferida! Desde que cá chegamos, tratam-me mal, porque fomos pedir ajuda à televisão”.

O menino revela uma inteligência extraordinária, mas, a cada dia que passa, vê os seus sonhos a desmoronar, o que o levou a confessar: “se tivesse que pedir alguma coisa, seria apenas que me operassem logo, quero voltar à minha rotina habitual, jogar bola, pular sem medo, ir à escola”.

“Às vezes desligo o telefone para não atender as ligações da dona do quintal”

Enquanto falávamos com Rogério, apareceu um enfermeiro para tratar o colega de cama. Ao contrário do que tem acontecido com ele, este paciente recebe assistência médica todos os dias, facto que deixa a mãe muito revoltada. “Todos os dias é a mesma coisa, atendem todos os pacientes, excepto nós, tudo porque viram o menino na televisão. Será que cometemos pecado por pedir ajuda?”, questiona.

Apesar das dificuldades, os pais de Rogério fazem de tudo para não deixar faltar nada, porém, é insuficiente para satisfazer todas as necessidades, a renda da casa é uma delas, pois faz sete meses que acumulam dívida, sendo que, mensalmente, pagam AKZ 7.000. “Às vezes desligo o telefone para não atender as ligações da dona da casa, estou sem rumo”, desabafou a mãe.

Trata-se de uma casa simples, com paredes rachadas, chão deformado, pintura desgastada, de apenas um quarto e uma sala, cozinha improvisada, onde os seis membros da família se dividem, uns na sala e outros no quarto, para domir.

O chefe da família sente-se de mãos atadas, por não conseguir dar uma vida digna aos seus filhos. “Tem dias que nem água para beber tem, se eu não fizer nenhum biscate, morreremos de fome, principalmente o Paulino, nem uma cama decente consigo dar aos meus meninos”, lamenta.

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