Polícias mortos no cumprimento do dever : FAMILIARES DIZEM-SE ABANDONADOS PELO MININT E CGPNA

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Depois da realização das cerimónias fúnebres, com direito a honras militares, foram feitas promessas às viúvas e demais parentes dos efectivos tombados, mas, não passaram de discursos, pois, muitas famílias andam jogadas à sua própria sorte.

Costa kilunda

Após o recente assassinato do efectivo da PNA pertencente à Unidade de Cavalaria e Cinotecnia, promovido, a título póstumo, de agente a 3.º subchefe, este jornal foi ao encontro de outras famílias de agentes da PNA assassinados no exercício da sua actividade e constatou a angústia, o desespero e a precariedade com que muitas delas vivem hoje.
A frase “sentimo-nos abandonados pelo MININT e pelo Comando Geral da Polícia Nacional de Angola (CGPNA)”, repetida, quase que em coro, por familiares de agentes perecidos, tem respaldo no seu actual modo de vida, que obriga mesmo a socorrerem-se das lixeiras para sobreviverem.
O jornal `O Crime´ traz, na presente edição, o caso de duas famílias, agora de braços com a miséria, depois que viram partir para a eternidade as únicas fontes de sustento e uma série de promessas não cumpridas feitas pelo MININT e CGPNA.

“Desde o desaparecimento físico do Hélder até agora, nunca tivemos nenhum apoio. A caixa social, apesar dos contactos que fizemos, não diz nada e, como se não bastasse, até à presente data, a viúva ainda não recebeu o subsídio de sangue. Por isso, sentimo-nos abandonados e reclamaremos pelo direito que nos cabe”

Ambas contaram à nossa reportagem que os apoios foram apenas aquando da realização das exéquias, com bens alimentares e caixão para a realização do funeral. Contudo, de lá para cá, os actos de solidariedade desapareceram e as promessas não saíram do papel. “As duas únicas visitas que recebi, após a morte do meu marido, foram apenas as do Comandante Municipal de Viana. Veio solidarizar-se com a família e na sua bagagem trouxe alguns bens alimentares”, recordou Ruth Francisco Dala Dange, viúva do malogrado Intendente Faustino António Luamba, à data comandante da esquadra da Boa-Fé, em Viana.
Ruth fez saber que, por conta da morte do marido, ocorrida a 30 de Junho do ano passado, durante um confronto com marginais que o tentavam assaltar enquanto regressava para casa, depois de mais uma jornada laboral, a situação agudizou-se. E, para tentar mudar o quadro, escreveu, no mês de Agosto de 2020, uma carta dirigida ao Comando Provincial de Luanda (CPL), solicitando ajuda de, pelo menos, AKZ 250.000.00 (duzentos e cinquenta mil kwanzas).
A resposta satisfatória surgiu três meses depois, isto no dia 27 de Novembro do mesmo ano. “Depositaram-me AKZ 230.000.00 (duzentos e trinta mil kwanzas) ”, disse, sublinhado que, até ao momento, foi tudo que viu dos cofres da corporação do qual o finado marido dedicou mais de duas décadas da sua vida.
Disse que escreveu a carta porque ela e as outras seis viúvas, bem como os 27 órfãos deixados pelo oficial estão a sofrer muito. “Não tínhamos dinheiro e precisávamos tratar alguns documentos para regularizar a questão da pensão, por isso, em conjunto, decidimos fazer aquele documento”, recordou.
Falou também que os 27 filhos estão fora do sistema de ensino escolar e que a situação que se encontra nas suas residências “é triste e de lamentar”. Para conseguir sustentar os seus oitos filhos, Ruth disse que recebe negócio de algumas pessoas, vende e, no final de cada dia, consegue algum dinheiro para comprar alimentação. “Para comer, já é difícil…e para formar os filhos?”, questionou.
“Falta-nos tudo… o homem que nos aguentava foi-se e agora o sofrimento faz moradia nas nossas casas. Estamos aborrecidas e tristes, porque pensamos que a Polícia daria um pouco mais de atenção à família do Intendente Luamba. Foram cerca de duas décadas que ele se dedicou à Pátria e, no final, a família é esquecida”, lamentou.
Concluiu que a família deseja o subsídio pós-morte e os documentos ainda em posse da Polícia, para que possam ter acesso ao dinheiro retido pelo banco nas contas do defunto. Igualmente, que se cumpra a promessa feita, segundo a qual, o primogénito seria integrado nas fileiras da PNA, bem como os demais beneficiarem de aulas nas escolas públicas.
“Acredito que o mataram por inveja dos colegas”
Pereira Benga, Jorge Gomes Pedro Saraiva, Marcelo Nicolau de Almeida e Benedito Morais Nazário, 32, 29, 28 e 24 anos, respectivamente, encontram-se detidos, desde junho último, e responderão pelo crime de homicídio voluntário concorrido com roubo. Pelo que apurou a nossa reportagem, o início do julgamento está previsto para sexta-feira, 9 do corrente mês.
Por sua vez, Graciano Mbambi Joaquim é, até ao momento, o único declarante no processo. “Aquando do assassinato do meu irmão não apareceu ninguém dizendo que estava com ele ou que tinha presenciado o acto. Porém, agora, para nossa surpresa, surge um declarante que diz que estavam juntos no fatídico dia. Para mim, ele foi ‘fabricado’ para despistar atenções”, suspeita Domingos António Luamba.
Apesar dos detidos terem confessado a prática e autoria do crime, o irmão do falecido acredita que os verdadeiros culpados pelo bárbaro assassinato do seu ente-querido estão em liberdade. “Algo até agora continua a me inquietar, vejamos: ele foi promovido a intendente numa sexta-feira e, 72 horas depois, numa segunda-feira, é assassinado! devo acreditar que foram bandidos?”, questionou.
Outrossim, aponta as divergências existentes nas informações postas a circular pela PNA no que diz respeito àquilo que se deu realmente naquela noite. “Nós encontramos a arma pessoal dele no seu gabinete, então, analisemos: uma pessoa desarmada à noite seria capaz de acudir um assalto? Acha que não sabia o que poderia acontecer? E por que não levou a sua arma?”, interrogou novamente.
Para Domingos Luamba, a morte do irmão foi uma “vingança”, pois, se o comandante estava numa operação, não seria o único a morrer. “Nós fomos militares e por aquilo que sabemos, onde morre um comandante, cinco ou mais homens seus o acompanham. Desconfio que tenha sido por inveja e os verdadeiros responsáveis pelo assassinato estão na Polícia”, acusou.
Tais acusações e suspeitas surgem agora porque Faustino António Luamba, o então comandante, pouco tempo antes da sua morte confidenciou para um irmão que estava a ser ‘sondado’ por colegas do Comando de Divisão Municipal de Viana. “Quem é este gajo afinal? Será que tem alguém lá em cima que o ajuda a ser promovido?”, confessara o defunto.
Polícia consola viúva com 9 mil kwanzas mensal
Contrariamente ao primeiro caso em que à viúva chegou, pelo menos, AKZ 230.000.00 (duzentos e trinta mil kwanzas), Jova Chitaria Antunes Rebanho, mãe do então agente da PNA, Hélder Próspero Rebanho Kuca, assassinado a tiro, quando tentava reagir a um assalto a sete de Dezembro de 2018, a viúva conta que recebeu apenas a totalidade de AKZ 27.000.00 (vinte e sete mil kwanzas) divididos em três meses.
A primeira quantia que chegou às mãos da viúva, quase um ano depois à morte do marido, isto é, no final do ano de 2019, foram um total de AKZ 18.000.00 (dezoito mil kwanzas) correspondente ao período de dois meses. E, de acordo com aquela cidadã, no ano passado, nada receberam. Apenas em Fevereiro do presente ano recebeu míseros AKZ 9.000.00 (nove mil kwanzas).
Revelou que a situação social da viúva é “péssima”. Desempregada e sem casa própria, encontrou abrigo na casa da avó, que já conta com os seus 80 anos de idade. “Graças a Deus, recebe uma pensão que tem servido de sustento para casa”, contou, adicionando que, ela também tem apoiado a nora, mas, ainda assim, não é suficiente para as despesas.
“Desde o desaparecimento físico do Hélder até agora, nunca tivemos nenhum apoio. A caixa social, apesar dos contactos que fizemos, não diz nada e, como se não bastasse, até à presente data, a viúva ainda não recebeu o subsídio de sangue. Por isso, sentimo-nos abandonados e reclamaremos pelo direito que nos cabe”, asseverou.
Quanto ao assassinato, Jova Rebanho fez saber que já forneceram pistas palpáveis ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), mas, de lá para cá, nem água vem nem água vai. “Entregamos nomes de pessoas envolvidas no crime, mas até agora não nos dizem nada. Ainda assim, tivemos informação que um deles está detido por conta de outro crime, também de assassinato. E, em relação ao crime em que a vítima mortal é meu filho, simplesmente o SIC permanece em silêncio”, lamentou.
Portanto, diz que uma Carta de Honra não basta. É extremamente necessário, no seu ponto de vista, que o MININT ou o CGPNA criem uma equipa que passe a realizar visitas periódicas para oferecer apoio moral e não só às famílias, porque estes agentes deram tudo de si à mãe Pátria.

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