“Angola é dirigida por criminosos”

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Retomamos a entrevista de Tchizé dos Santos cedida ao canal televisivo CNN – Portugal, onde a filha do malogrado ex-Presidente da Republica José Eduardo dos Santos, dentre outras denuncias, diz que o seu pai foi vítima de um assassinato, pois, lhe foi negado assistência médica, colocado mais de 16 horas sem comer, e que, o Governo angolano é criminoso. Assim como manifestou que um dos últimos desejo do seu pai era que Adalberto Costa Júnior vencesse as eleições de 24 de Agosto.

CNN – A imprensa angolana, nesta última hora, está avançar que a autópsia ao corpo do seu pai não revela qualquer indício de envenenamento, isso muda a estratégia que irá seguir daqui para frente?

Fonte: CNN Portuguesa

Tchizé dos Santos – Bem… Eu não fiz nenhuma acusação de envenenamento, eu fiz uma acusação ou melhor denúncia, pedi a investigação de homicídio, por omissão por negligência, omissão de cuidados e também uma acusação de revelação de segredos sobre o estado de saúde do meu pai, e obviamente, que a autópsia foi algo que foi referido pelos médicos e, evidentemente, que é algo que tinha de ser descartado um envenenamento, mas a queixa que apresentei não foi uma acusação de envenenamento, foi uma acusação de pedido de investigação sobre uma possível tentativa ou consumado homicídio, por omissão, por negligência, por maus tratos e uma das acusações que me chegou, é que o meu pai ficou 16 horas sem comer, foi-me negada a possibilidade de pôr uma enfermeira em tempo inteiro na casa do meu pai, foi algo que pedi. Aliás, uma das primeiras coisas que pedi quando o meu pai chegou de Angola foi que pudéssemos internar porque chegou com entre 45-48 kg, uma pessoa que mede 1,78 metros de altura, e isso me foi negado quer pelo Doutor João Afonso, pois havia um homem de confiança que é o Luís Fogo, que é uma pessoa de confiança do meu pai que interferia em tudo, ele dizia, não, não, o chefe não quer sair de casa, então o chefe não quer sair de casa, vamos contratar um enfermeiro e não me importo de pagar eu pessoalmente essas despesas, mas que haja algum profissional, que tenha experiência e periodicamente presta  atenção, que lhe dê os medicamentos de forma acertada, fundamental e que seja alguém sobre quem o meu pai não tenha a mesma autoridade.

Por exemplo, um militar que teve os seus serviços connosco, um comandante ou um mordomo que trabalhou connosco na vida, que fosse alguém externo com focos profissionais na vida, por turno, suporte que pudesse ajudar o meu pai que pudesse locomover-se por todos os cómodos da casa, por exemplo, evitar uma queda, que ocorreu, isso foi mandato, portanto, o que eu quero investigar ou que pedi que investigasse e que de facto, é que se tivesse sido deteriorada a saúde do meu pai como consequência das acções das pessoas denunciadas.

“Meu pai morreu depois da Ana Paula entrar em casa”

CNN – Uma vez que a imprensa angolana está a avançar com alguns detalhes, nomeadamente descarte de envenenamento, queria saber se, enquanto filha, já tem algum resultado dessa autópsia feita ao corpo do seu pai? 

Tchizé dos Santos – Olha, curiosamente, eu fui a pessoa que interpôs a acção e eu ainda não tenho, é muito engraçado que essa imprensa angolana e essas pessoas, jornalistas e etc. tenham informações mais rápidas do que eu mesma que interpus a acção, e é muito curioso que o Presidente João Lourenço estivesse a saber primeiro do falecimento do meu pai e anunciado primeiro o falecimento do meu pai do que eu.

Para mim foi um crime muito grave, abusivamente a dar a notícia ao mundo do falecimento do meu pai, eu fiquei a saber pelo senhor João Lourenço o falecimento do meu pai, chocou-me tremendamente e depois foi confirmado pelos advogados que diziam que a directora da clínica tentava entrar em contacto comigo, pelos vistos há alguém infiltrado dentro da equipa das pessoas que rodeiam o meu pai e passou a informação.

As pessoas rodeavam o meu pai eram todos subordinados do João Lourenço, o doutor João Afonso que é médico da presidência e que acompanhava o meu pai há 16 anos, aliás, por quem eu e todos da família tínhamos muita confiança e gratidão achando que era uma pessoa que cuidava da saúde do meu pai, que curiosamente, agora, foi descoberto que é uma pessoa que estudou com uma bolsa de estudo dos serviços secretos da Rússia, na antiga União Soviética, que é médico militar, descobrimos que ele é pago pela Presidência da República e eu não sabia, portanto, até 2017, o doutor João Afonso tinha um Comandante-em-Chefe, chamado José Eduardo dos Santos, mas a partir de 2017, ele começou a ter outro Comandante em Chefe chamado João Lourenço, com estranhas razões, sem ninguém saber porquê motivo José Eduardo dos Santos era um alvo abater, que é alguém que lhe incomoda, lhe fazia sombra, que ele queria destruir a todo custo, queria e conseguiu, por tanto, o doutor João Afonso andou a proibir os médicos espanhóis, com quem nós também tínhamos muita confiança de assistirem o meu pai, os doutores Jorge Rits eTeresa Rits e dar as consultas semanais ao meu pai na residência, cheguei a receber mensagens, estão escritas e guardadas.

Eu ligava periodicamente para a doutora Teresa Rio para saber como estavam lá, e ela disse-me  que “não conseguimos realizar as consultas, até ao momento não temos visto o seu pai”, disse-me isso no dia 04 de Maio, e depois me disse que adiaram para a semana, no dia 11 de Maio voltei a ligar e a doutora disse “até agora ainda não conseguimos ver o seu pai”, adiaram as consultas, teve de ser a minha irmã Isabel a invadir a casa do meu pai porque a senhora doutora Ana Paula já estava dentro da casa coercivamente, por imposição da sua filha Josiana e, quando o meu pai já estava muito debilitado, eu não tinha condições para ter discussões com ninguém, depois de tanta pressão, ele pediu então que a pusessem no quarto de hóspedes, a senhora entrou com três malas, no dia 28 de Abril, no dia 30 de Abril, o meu pai foi sujeito a exames, foi pesado e tudo mais, sendo que tinha estado aos cuidados dos meus irmão, José Eduardo (Coréon Du), desde  o dia 10, após a sua chegada a Espanha até à dada altura, um mês ou mês e meio, tinha constatado que ele tinha engordado 7 kg desde que tinha chegado de Luanda, isto depois de ter chegado de Luanda com 30 kg a menos de forma estranha, curiosamente o doutor João Afonso, em nenhum momento, informou à família, em nenhum momento eu fui informada que o meu pai estava a emagrecer a olhos a vistos.

 os filhos da doutora Ana Paula, que são os filhos que poderiam ir a Angola, foram e vieram, nunca informaram aos irmãos mais velhos que o pai estava a perder peso até chegar a ter menos de 30 kg, eu também acho muito estranho, os filhos da doutora Ana Paula, se vissem os seus filhos pequenos a perder peso de forma estranha, não os teriam internados de forma imediata ao hospital, procuravam um psicólogo ou pediam ajuda à família, em relação ao meu pai, não fizeram, o que eu achei estranho, nesta altura a doutora Ana Paula não estava em Angola.

A última vez que a doutora Ana Paula tinha tentado entrar na casa do meu pai foi em Dezembro do ano passado, e ele não autorizou a sua entrada na casa, não conviviam, não tinham convívio social, os últimos aniversários do José Eduardo dos Santos, desde 2017 até hoje, não contaram com a presença da doutora Ana Paula, o meu pai foi internado, operado, teve um cateterismo em 2019, quem esteve com ele neste momento foi o meu irmão José Eduardo (Caréon Dú), e eu voei de Londres para estar ao lado dele, a doutora Ana Paula não sabíamos nem se quer nada dela, vimos imagem da senhora a beber, bêbada, desculpa, foi casada com o meu pai, mas tenho dito aos meus irmãos que não se deve ocultar a verdade, ela entra em casa e depois de dois meses o meu pai falece, qual é o filho que não vai apresentar queixa a Polícia?!

CNN – Tchizé dos Santos, desta pergunta feita, qual é o filho que ia apresentar queixa à Polícia, e o que eu lhe pergunto é, se na queixa que apresentou à Polícia, fê-lo em seu nome próprio ou contou também com o apoio dos seus irmãos?

Tchizé dos Santos – Olha, eu contei com o apoio de alguns irmãos, que um deles, inclusive deu o seu testemunho mas na hora da assinatura da queixa me recomendaram que eu fizesse sozinha, eu não sei mentir, e assumo que fiz a queixa formalmente sozinha, obviamente que eles não são obrigados a confirmarem essa informação porque a saúde e a vida e o bem-estar do meu pai era tanto da responsabilidade de qualquer um deles como a minha assinatura ou a de um só filho basta…

“O Governo de Angola é criminoso”

CNN – Tchizé dos Santos, esclareça aqui um ponto, embora tenha sido a única a assinar o documento, os seus irmãos estão do seu lado, digamos apoiam a sua iniciativa de não levar, para já, o corpo do seu pai para Angola?

Tchizé dos Santos – Olha, eu já deixei bem claro que eu não negoceio com criminoso, o Governo de Angola é um Governo criminoso, liderado por um criminoso, que viola a separação de poderes, que viola a Constituição da República, eu digo e provo, eu por exemplo fui eleita deputada três vezes, a última vez foi em 2017, fui expulsa, perdi o meu mandato sem direito ao contraditório, sem ser ouvida num inquérito, isso é um crime absoluto contra a Constituição angolana, a esse respeito na Constituição portuguesa, ninguém pode ser acusado de nada nem condenado, aplicada as medidas a ninguém sem que essa pessoa tenha o direito de ser ouvido, eu não tive esse direito, sofri ameaças de morte dentro da plenária da Assembleia Nacional, fui afastada do Comité Central do MPLA, sem direito a ser ouvida, sem direito ao contraditório, sem direito à defesa, portanto, é um criminoso, é alguém que viola às bases de pilares as leis dos estados democráticos de direitos e eu não negoceio com esse tipo de gente.

CNN – Tchizé dos Santos, em relação à sua acção tem dito por variadíssimas vezes que o teu pai deixou manifesta a vontade de não ser levado para Angola, de não ter um funeral em Angola, mas sim de ter em Espanha, alguma prova que possa apresentar isso mesmo? 

Tchizé dos Santos – O meu pai se tivesse feliz, se sentisse seguro, cómodo em Angola, se tivesse sido tratado com dignidade em Angola, ele não passaria a residir fora, estaria perto dos seus filhos que o João Lourenço persegue e difama, eu não vou falar dos outros, vou falar do meu caso, eu sou difamada, inventam-me crimes, o meu pai manifestou a vontade de não ser humilhado pelo João Lourenço, o meu pai arrependeu-se amargamente de ter ido a Angola porque foram feitas as promessas que não foram cumpridas, porque lhe foi quase imposto que fosse ao congresso do MPLA.

Acho que o meu pai morreu por não ter aceite isso e o João Lourenço, ao aperceber-se que o meu pai não lhe daria apoio em vida na sua candidatura à Presidência da República, então pensou, vivo ou morto tu vais apoiar-me, então vais apoiar-me morto com uma bandeira do MPLA por cima do teu caixão.

Como é que o Governo angolano, em três dias, mobilizou tantas flores, tantos caixões, inclusive, quem vive em Angola sabe que é difícil 100 molduras de madeira, Angola tem 164 municípios e neste momento tem fotografias do meu pai molduras em todos os municípios como é que ele conseguiu fazer isso tudo em três dias? 

Estava tudo preparado, outra coisa, o óbito do meu pai foi declarado às 11horas da manhã antes mesmo que eu soubesse que o meu pai tinha falecido, o João Lourenço já tinha publicado um despacho a indicar 16 pessoas, despacho esse que está assinado sem data, por que não tinha data? Já estaria preparado? Já sabiam que ele poderia morrer? 

O meu pai era refém, o meu pai estava sequestrado, sofria chantagem, inclusive o senhor Luís Fogo chegou a chantagear-me e que se eu contasse ao meu pai sobre o estado de embriaguezes, bebedeiras e as fotografias de doutora Ana Paula, eu seria a assassina do meu pai, poderia matar o meu pai do coração…

“O meu pai preferia que fosse o Adalberto Júnior a ganhar as eleições”

Tchizé dos Santos, tinha sido manifestado pelo o seu pai a vontade de ter um funeral de estado na Espanha? Se existe algum tipo de documento que expressa essa vontade?

O meu pai manifestou o desejo de não ser mais humilhado pelo o João Lourenço, e já não voltaria mais para Angola, o meu pai disse a mim que preferia que fosse o Adalberto da Costa Júnior a ganhar as eleições, disse-me isso no dia 4 de Abril de 2022, depois do João Lourenço proferir um discurso abusivo, insultuoso, no qual tentava tirar todo mérito de José Eduardo dos Santos no feito da paz, dizendo por outras palavras, que foi uma ideia de todos, e que, José Eduardo dos Santos tinha sabido ouvir os desejos de todos e posto em prática.

O meu pai ficou extremamente magoado, foi a última gota de água. João Lourenço primeiro veio mentir que tinha encontrado os cofres vazios, obrigou ao meu pai na única vez que veio intervir publicamente ter que vir desmentir com números e dizeres que tinha deixado com o senhor Ministro das Finanças, Archer Mangueira, o senhor Governador do Banco Nacional mais ou menos 15 a 16 mil milhões de dólares na conta única do tesouro.

Tchizé dos Santos, se a decisão do tribunal da Justiça for para o carpo do seu pai ir para Angola, a Tchizé dos Santos teria disponibilidade para participar nessa última homenagem ao seu pai?

Olha, eu não irei pôr o meu pé em nenhuma instituição angolana, nem se quer num consolado, nem se quer num carro com matrícula angolana, enquanto o João Lourenço for Presidente da República de Angola, fui aconselhada por especialistas políticos e advogados, e eu sei que corro perigo porque eu fui a única pessoa deputada capaz de lhe fazer,

Lembrar que os possíveis estatutos do MPLA que a Constituição da República deixa bem claro que está acima de tudo e eu como militante daquele partido, ao ver que o presidente ofende os angolanos, violando os direitos democráticos, os direito de Estado de Direito, e, por pouca sorte dele, a Espanha não é Angola, a Espanha não é Portugal, onde o Governo Angolano ameaça cortar relações diplomáticas, eu sou cidadã portuguesa, não sinto segurança jurídica para estar em Portugal, porque o governo português já baixou as orelhas ao presidente João Lourenço.

Por exemplo, no caso de um cidadão angolano que também é português, que foi provado que chegou a corromper um Juiz e foi provado que Portugal errou, baixou as orelhas entregando os processos para Angola.

Neste processo que está a levar a cabo de recusar levar o corpo do seu pai para Angola, é um processo que está sozinha ou tem o apoio dos seus irmãos e de que irmãos tem o seu apoio? 

Olha, eu não vou dizer de que irmãos eu tenho apoio, porque eles não me autorizaram, não estou autorizada para falar em nome deles, que eu posso dizer que eu entrei em acção e tenho apoio de irmãos meus, que não somos a minoria, não porque eu tenho uma posição mais contundente em relação a eles porque eu sou a política da família e compreendo talvez mais as comunicações políticas e os aproveitamentos políticos que estão a ser feitos, sinceramente acho que tudo foi premeditado, o meu pai faleceu há três dias, no dia 8 de Julho, Angola, como os portugueses bem sabem, é um país que não produz rosas, e um país tropical.

Aliás, por acaso poderia até ter muitos girassóis mas nem com girassóis produzimos, nós não temos fábricas de tapetes vermelhos e em três dias o Governo de Angola conseguiu mobilizar metros e metros como todo mundo viu em directo na televisão, tapetes vermelhos, rosas vermelhas e amarelas para pôr em vários comités do partido MPLA com a fotografia do João Lourenço que aparece maior que a fotografia do José Eduardo dos Santos, como se o morto fosse o João Lourenço, até na hora da morte alheia quer competir o protagonismo com o falecido, num círculo que criou para fazer um velório do pai alheio, o João Lourenço não é filho do meu pai, que eu saiba, se é, que apresente um teste de DNA.

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