Angola gasta cerca de USD 13 milhões em participação na Expo Dubai: ENQUANTO MILHARES DE PESSOAS MORREM NO SUL DO PAÍS POR FALTA DE COMIDA E ÁGUA

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A falta de um plano de contingência para mitigar os efeitos da seca no sul de Angola, que já afecta seis províncias e mais de 2 milhões de pessoas, muitas delas crianças com menos de cinco anos, de agravar ainda mais a situação. Mas enquanto isso, o governo angolano vai gastar cerca de USD 13 milhões para  participação na Expo  Dubai 2020.

 João Feliciano

O valor, segundo a comissária-geral de Angola na Expo 2020 Dubai, Albina Assis Africano, representa apenas a metade do investimento que costuma a ser desembolsado para as exposições mundiais, devido à crise.

Albina Assis disse que o orçamento teve aprovação do Presidente da República, salientando que a maior verba foi para a construção do pavilhão, feito em betão, “como se estivesse a fazer um prédio”, diferente da Itália, construído em madeira.

“Esse pavilhão realmente orçou à volta de 4,5 milhões de dólares, todos os restantes gastos são para o apetrechar”, explicou a comissária-geral, acrescentando que depois tem de se tratar da exposição.

Seca e miséria no Sul do país

Enquanto balúrdios de dinheiros públicos são gastos na exposição do Dubai para vender uma falsa imagem de “Angola em desenvolvimento”, milhares de famílias no Sul do país morrem à fome, todos os dias, por falta de programas concretos para mitigar os efeitos da seca que, há anos, assolam aquela região.

A seca já abrangeu seis das 18 províncias do país, sendo o Cunene a região mais afectada. Há milhares de pessoas a passar fome e os animais estão a morrer. 

Cerca de 2,3 milhões de pessoas estão a sofrer com a seca, quase 500 mil são crianças com menos de cinco anos. Só no Cunene, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar triplicou, passando de 850 mil em Março para mais de 1 milhão até à data presente, segundo dados da UNICEF.

Segundo o coordenador da Associação Construindo Comunidades, o padre Jacinto Pio Wacussanga, que, há longos anos, acompanha a situação da fome aguda na região sul do país, calcula que “mais de um milhão de pessoas estão a ser afectadas de forma directa”.

“De 2012 a 2016, falava-se em cerca de um milhão e agora a situação se agravou. Modestamente falando, estamos a falar de acima de um milhão de pessoas”, falou o também activista, em entrevista à DW em 2019, que trabalha na região dos Gambos, província da Huíla.

Para o padre, as pessoas vão ficar debilitadas, e, se não houver uma cesta básica para estas populações, o país vai assistir a uma fase crítica sem precedentes.

Cesta básica para famílias afectadas

Como alternativa à actual situação, o Governo deveria dar prioridade a um programa de cesta básica para as famílias afectadas pela seca, tal como já faz o Brasil e a Namíbia, ao invés de se vender uma falsa imagem de que “tudo caminha a mil maravilhas”.  Aliás, como se sabe, o governo do Presidente João Lourenço definiu planos de contingência, mas muitos nunca saíram do papel para a prática. 

Numa fase intermédia, devia começar a erguer-se um sistema de retenção de águas, além de outros trabalhos para se poder olhar para o desenvolvimento do sector da agricultura familiar e pecuária e do sistema de segurança alimentar no interior do país.

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