Para roubar a empresa…: SEGURANÇA SACRIFICA A VIDA DE QUATRO COLEGAS E DEIXA DOIS FERIDOS

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Quatro cidadãos, nomeadamente, José Bascos, 49 anos, Domingos Adão da Costa, 56 anos, Fernando António, 39 anos e António Cassinda Caxala, 48 anos, perderam a vida e outros dois ficaram feridos, em consequência de uma agressão física sofrida durante um assalto a um armazém da empresa “Angonabeiro Café Ginga”, no distrito urbano 11 de Novembro, município do Cazenga. 

Engrácia Francisco

O segurança, que atende pelo nome de Mateus João, está foragido desde o passado dia 14 de Maio do presente ano, por ser o principal suspeito de uma associação criminosa, envolvida no homicídio qualificado, roubo qualificado de diversos artigos e posse ilegal de arma de fogo.

Segundo o Serviço de Investigação Criminal, o crime começou a ser arquitectado no início do mês de Maio, quando os envolvidos efectuaram contactos com um dos elementos do corpo de segurança do armazém Angonabeiro Café Ginga, identificado por Mateus João, no sentido deste fazer um levantamento sobre os pontos fracos da vigilância da empresa e da sua constituição.

 Feito o levantamento, um grupo composto por oito elementos, munidos de arma de fogo, invadiram a empresa por volta das 23 horas, quando seis seguranças se encontravam em serviço.

Depois de serem agredidos fisicamente, quatro dos seis seguranças viram os seus membros superiores e inferiores amarrados e as bocas amordaçadas. Os marginais apossaram-se de duas armas de fogo do tipo AKM que se encontravam em posse dos seguranças e, seguidamente, foram colocados no interior de uma viatura, parqueada no quintal do armazém. 

Sem qualquer impedimento, os marginais arrombaram as portas do armazém e, com apoio de uma viatura (camião), de marca Scania, roubaram 671 sacos de açúcar de 50 kgs cada, um aparelho de ar condicionado, sete computadores portáteis de marca diversas e 12 telemóveis de marcas e modelos diferentes.

Entretanto, dos seis seguranças amordaçados pelos marginais, três foram encontrados mortos, sendo dois no interior de uma viatura e um estendido no chão, enquanto os outros três foram socorridos até a uma unidade hospitalar. 

Mórino Chateia, um dos sobreviventes, de 35 anos, residente em Cacuaco, bairro Belo Monte, com a esposa e sete filhos, conta que teve a sua vida em perigo no seu décimo terceiro dia de trabalho na empresa. “Tudo aconteceu na noite de sábado para domingo, por volta das 23 horas. Inicialmente, às 16 horas, o colega Mateus disse que não iria comer feijão, por isso, comprou frango para todos, com o seu dinheiro. Cozinhou e levou para cada um no seu posto. Assim que comemos, começamos a nos sentir mal, estávamos todos drogados e não conseguíamos levantar”.

Segundo fez saber a nossa testemunha, o colega que fazia parte do grupo de marginais, colocou uma substância química não identificada na refeição, que os fez perder a consciência. “Ele apenas cozinhou e nem comeu a comida, simulou que estava a ir comprar cigarro, enquanto comíamos”, acrescentou Mórino Chateia.

“Consegui-me erguer e fui até ao posto do meu colega, para avisar que a situação não estava boa. Assim que cheguei quase ao portão, fui colocado com uma pistola na boca e outra na cabeça, espancaram-me e, de seguida, levaram-me até onde estavam os outros, alguns deles já mortos”, frisou a testemunha. 

De seguida, os marginais colocaram os corpos nos porta-bagagens das viaturas e a nós, que estávamos vivos, amarraram-nos. “Ficamos amarrados a noite toda, até que no dia seguinte fomos socorridos por um colega que foi fazer vistoria no local”, recorda.

Mórino Chateia e Manuel José Quenga, outro sobrevivente de 45 anos, afirmaram que viveram a pior noite das suas vidas, tendo os sinais das agressões nos corpos ainda bem visíveis. “Na altura em que tudo ocorreu, não recebemos nenhuma assistência médica, a empresa de segurança deu-nos apenas cinco mil kwanzas, para comprar antibióticos”, lamentam as vítimas. 

José Bastos, de 49 anos de idade, segurança há cinco meses, deixou 11 filhos órfãos, trabalhou durante quatro meses na empresa e teve morte imediata causada por choque traumático, trauma crânio encefálica e agressão física.

Para Eugénio Bastos, filho do malogrado, seu pai deixou grande vazio no seio da família. “O meu pai está a fazer muita falta à família e principalmente aos filhos. Quero que todos eles apareçam, porque o meu pai morreu de uma forma muito triste, precisamos que se faça justiça. Ele sempre foi bom com todos os vizinhos e familiares, não tinha nenhum inimigo”, lamenta.

Domingos Adão Costa, pai de quatro filhos, teve igualmente choque traumático, trauma craniano encefálica, em consequência da agressão física sofrida.

Segundo o irmão do malogrado, Fernando Adão da Costa, o mesmo trabalhava na empresa há oito meses e, desde então, nunca teve conflitos com ninguém. 

“Somos irmãos e trabalhamos na mesma empresa, ele nunca teve nenhum problema, foi má sorte por estar a trabalhar naquele dia, porque o autor do crime foi o que me rendeu no fim-de-semana”, disse, acrescentando que a empresa de segurança faz alimentação para todos, de segunda a sexta-feira, mas, nos fins-de-semana, os próprios seguranças é que organizam a refeição”.

Fernando António, 39 anos, morreu por asfixia mecânica, contrição do pescoço e estrangulamento. 

E por último está o cidadão António Cassinda Caxala, 48 anos, que morreu dias depois à agressão no Hospital Américo Boa-Vida.

Marginais são reincidentes 

O Departamento Municipal do Cazenga afecto ao SIC-Luanda desmantelou, parcialmente, um grupo composto por 11 cidadãos nacionais, dos quais seis detidos, com idades entre 30 e 47 anos, dentre eles duas mulheres, envolvidos no crime de associação criminosa, homicídio qualificado, roubo qualificado de sacos de açúcar e diversos artigos e posse ilegal de armas de fogo.

Os elementos detidos têm passagem pelo SIC, por crimes de roubo qualificado de AOA 1.400.000.00 (um milhão e quatrocentos mil kwanzas), ocorrido em 2014, no interior de uma residência, no bairro Patriota. Igualmente pelo crime de furto de electrodomésticos, setecentos (700) plasmas, no interior de um armazém, no bairro Calemba II, no mesmo ano.

Também estão arrolados no crime de roubo de valores monetários, ocorrido igualmente em 2014, no interior do supermercado Freshmart, no bairro Mabor, município do Cazenga. 

Materiais apreendidos

Durante o trabalho investigativo realizado pelo SIC, foram apreendidas duas armas de fogo, uma AKM e Jericó, uma viatura Suzuki, 90 sacos de açúcar, sete televisores plasmas de diversas marcas, comprados com valores da venda do produto roubado.

A associação criminosa, na realização do crime, fazia-se transportar em quatro viaturas de apoio, mormente, uma de marca Suzuki Swifit, cor preta, Kia Sportage, cor cinzenta, Toyota hiace, cor azul e branca, e um camião de marca Scania, cor branca. 

Em nota de imprensa feita a 24 de Maio, a empresa Angonabeiro refere que, na sequência do assalto às suas instalações, ocorrido na madrugada do dia 15 de Maio, lamenta profundamente o falecimento dos três funcionários da empresa de segurança, tendo apresentado as suas mais sentidas condolências aos seus familiares, aos quais se mantém a dar todo o apoio necessário. 

Igualmente, lamenta os ferimentos causados a outro funcionário, ainda hospitalizado, garantindo também todo o apoio ao próprio e a sua família. 

A Angonabeiro informa que, “em conjunto com a empresa de segurança, tem colaborado com as autoridades competentes, para que, rapidamente, se apurem todas as circunstâncias relacionadas com os actos perpetrados e aguarda a conclusão da investigação, de modo a que todos os responsáveis sejam encontrados, detidos, julgados e exemplarmente punidos, de acordo com a lei vigente”.

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