Saúde vai de mal a pior: MÉDICOS USAM EMBALAGENS NO LUGAR DE LUVAS

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Nos últimos tempos, vários hospitais públicos têm registado falta de materiais, fazendo com que usem mecanismos fora do normal para “amenizar a situação” que se torna insustentável a cada dia que passa.

Por: Honorina Kiampava

Em conversa com Joaquim Rodrigues, médico há mais de 20 anos, que trabalha, actualmente, para o hospital Américo Boa Vida, soubemos que a situação está cada vez pior e que estão de mãos atadas, por não terem o que fazer nem onde recorrer para serem ouvidos.

Passeando pelo referido hospital, nomeadamente, no refeitório e no Banco de Urgência, uma médica chegou à recepção, pedindo luvas e algodão, mas, para seu espanto, lhe foi entregue embalagens, invés de luvas. Sem alternativa, teve de receber e ir atender o paciente que chegou gravemente ferido, por conta de um acidente de viação.

Joaquim Rodrigues explicou que esta prática é frequente, não só naquela unidade sanitária, como na maior parte dos hospitais públicos. “Às vezes é difícil ter que lidar com um governo que não apoia um dos maiores sectores do país! Estão mais preocupados com o petróleo do que outra coisa, esquecendo-se de que sem saúde nada mais tem sentido!”.

Há, ainda, uma gritante escassez de equipamentos de segurança para médicos e enfermeiros, que estão na linha da frente do combate à pandemia causada pelo novo coronavirus, o que é imperceptível, dado que “Angola tem recursos suficientes para rever isso. Não estamos a pedir nada impossível… precisamos ser valorizados, razão pela qual muitos reclamam dos médicos dos hospitais públicos, da sua intolerância, muitas vezes não é por mal, é só a frustração de trabalhar sem condições”, lamenta.

Quanto ao exame de imagiologia, especialidade médica muito importante que se ocupa do uso das tecnologias de imagem, para realização de diagnósticos, o técnico de saúde, de 65 anos de idade, refere que “nenhum hospital do nível terciário possui um aparelho de ressonância magnética”.

Ao entrar no Hospital Pediátrico David Bernardino, um dos maiores de Angola, geralmente, o primeiro som que se ouve é o de pessoas a chorar. Há crianças que morrem nos braços das mães e pais, à espera de sangue para fazer uma transfusão.

Vasco está no hospital e foi com o filho ao Banco de Urgência, que está completamente cheio. “Está muito complicado. Não temos dinheiro. O paciente é que tem de comprar tudo. São já 16 horas de espera. O meu filho está sem sangue e eu, até, já doei, mas até agora não fomos atendidos”, lamenta.

Há muitas crianças em estado grave, mas a espera prolonga-se. O hospital não tem camas suficientes para tanta gente. Quatro pacientes dividem uma cama, enquanto outros recebem assistência por cima de um pano estendido no chão.

Hospitais sem alimentação suficiente

Várias são as pessoas que, obrigatoriamente, compram comida fora das unidades hospitalares, a fim de alimentarem os seus familiares internados. No hospital Josina Machel, vulgo Maria Pia, muitos ficam do lado de fora não só sem comer, como sem saber o que o seu parente comeu ou se vai comer, por conta da restrição na recepção de visitas em época de pandemia.

Ana da Conceição, de 57 anos, está com o filho internado há mais de quatro dias e conta-nos que tem sido difícil alimentar-se e dormir em condições. O filho, que sofre de distúrbio alimentar, precisa de alimentos com bastante proteína, ferro, cálcio, mas nem sempre ela consegue comprar uma lata de leite, por ser muito cara, e o hospital não fornece devidamente os alimentos para os pacientes.

“Faço tudo que posso para ver o meu filho curado, mas, às vezes, faltam-me forças pra continuar. Desde que ele internou aqui, os gastos só aumentaram. Durmo aqui fora todos os dias com este frio todo”, lamenta, acrescentando que ficar aí é a única opção que tem para evitar maiores gastos, já que vive no município de Cacuaco, bairro Vidrul.

Por outro lado, Imaculada Mateus, de 25 anos de idade, tem a mãe hospitalizada há mais de um mês no Hospital Geral de Luanda e conta a tortura que é não poder vê-la para constatar como está. “Ela tinha o pé inchado, falava-se em tala, fez o tratamento tradicional, mas em nada resultou. Está aqui há mais de 30 dias e trazer qualquer refeição custa-nos 500 kwanzas aos seguranças”.

A família de Imaculada precisa estar, permanentemente, no hospital, no lado de fora, para atender a qualquer tipo de necessidade que os médicos venham a declarar. “Aqui é assim. Se não quiseres que abandonem o teu doente, é só ficar aqui em prontidão”, falou, visivelmente agastada.

Imaculada concorda que o sistema de saúde angolano é bastante precário e lamenta que todos os dias tenha de gastar 1.000 kwanzas para que a sua mãe matabiche e almoce em condições, porque o hospital nem sempre oferece todas as refeições e nem sempre as mesmas dispõem de vitaminas típicas das necessidades de doentes.

Seropositivos sem anti-retrovirais

Dados indicam que, no país, cerca de 350 mil pessoas estão infectadas com o VIH/SIDA e apenas 93 mil fazem terapia anti- retroviral, 27 mil fazem apenas uma terapia de segunda linha e, ainda assim, vivem cortes no tratamento desde Março, devido à ruptura do estoque.

“Nós estamos preocupados com a situação dessas pessoas que vivem sem tratamento, há mais de três meses. Quando elas param com a medicação, os problemas tornam-se mais graves”, diz o presidente da ANASO, António Coelho.

Segundo ele, o país regista 38 mortes e 76 novas infecções, diariamente, uma situação que muito preocupa o sector da saúde, o que o faz apelar ao Governo que não deixe de olhar pelos seropositivos, visto que, agora, o mundo todo só fala da covid-19. “Ainda há pessoas a morrerem de tuberculose, malária e VIH”.

A ausência de anti- retroviral para o paciente de VIH provoca um efeito directo de multiplicação do vírus, que ataca células do organismo até chegar à morte, explica o especialista Miguel Sebastião. “O uso da medicação deve ser contínuo, para evitar que os vírus se multipliquem no organismo e que se diminua o risco de contaminação”.

A directora do Instituto Nacional de Luta Contra a Sida, Lúcia Furtado, afirmou que o país tem, sim, registado, nos últimos tempos, dificuldades no acesso aos medicamentos, devido ao impacto da covid-19, mas garante que, dentro em breve, o país será reabastecido com cerca de 13 mil frascos de retrovirais, sendo que uma parte será distribuída para os que não têm possibilidade de adquirir os comprimidos.

FCSSS condena suspensão do presidente do Sindicato dos Médicos

Segundo o coordenador do Fórum de Concentração Sindical do Sector da Saúde de Angola (FCSSS), Cruz Mateta, a constatação de que o sector de saúde angolano está abaixo da esperança média de vida resulta de um levantamento feito em diferentes hospitais do país, que avaliou o grau de implementação do Plano Nacional de Contingência para o Controlo da Covid-19.

O responsável, que apresentou, em conferência de imprensa, a nota de protesto do Fórum, submetida, a 6 de Agosto, ao gabinete da ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, disse terem constatado, também, a falta de medicamentos em todos os hospitais do país. “Verificamos a falta de medicamentos diversos, como soros, seringas, fios de sutura, anestésicos, sistemas, brânulas, sacos colectores, aventais e outros”, afirmou.

Na nota, o FCSSS “repudia” a suspensão e transferência do presidente do Sindicato Nacional dos Médicos de Angola (SINMEA), Adriano Manuel, do Hospital Pediátrico de Luanda para o Ministério da Saúde, considerando a medida como “anti- democrática”, tudo porque o médico denunciou, em Junho passado, a morte de 19 crianças, no Banco de Urgência do Hospital Pediátrico de Luanda, onde exercia a função de chefe de controlo de infecções hospitalares.

Para o também secretário-geral do Sindicato Nacional dos Enfermeiros de Angola, a falta de material de protecção nos hospitais é um facto constrangedor. “Esta situação coloca-nos entre a espada e a parede, porque, por um lado, mesmo desprotegidos, não podemos deixar de atender o doente, deixando-o vulnerável, podendo surgir, daí, outros problemas”, reclamou.

Cruz Mateta questiona o destino do material de biossegurança adquirido pelo Governo, sendo que, no mês de Junho, o país recebeu duas toneladas de material diverso de biossegurança e hospitalar, no âmbito da Prevenção e Combate à Covid-19, como parte das 380 enviadas pela República da China, referindo, também, que grande parte dos laboratórios dos hospitais primários e secundários do País “estão inoperantes”,

Em declarações à imprensa, o secretário de Estado para a Área Hospitalar, Leonardo Inocêncio, disse que grande parte destes equipamentos são meios hospitalares, como camas tripartidas, e outra é de biossegurança e gastáveis, como luvas, máscaras, viseiras, dentre outros. “Chegaram, também, 35 ventiladores invasivos, numa doação do Banco de Negócios Internacional (BNI)”, reportou.

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