Ventos da mudança

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Não obstante haver sinais claros de que a maioria dos eleitores pretende um novo ciclo para Angola, o governo tudo tem feito para evitar que a oposição tenha condições para afirmar os seus projetos políticos em igualdade de circunstâncias. Quase cinco décadas depois de ter conquistado o Poder, o MPLA não distingue o que são os interesses do país dos seus próprios interesses, não respeita nem a separação de poderes nem as regras mais básicas de funcionamento das instituições democráticas. João Lourenço está de tal forma embriagado num Poder que julga só seu que, em entrevista à RTP anunciou ao mundo que não vê por que razão, por ser Presidente de Angola, não haveria de usar na sua campanha, como usa, aviões e viaturas do Estado, num reconhecimento do peculato que, por inércia completa das autoridades judiciais, continuará sem consequências.

João Lourenço e os que ainda o seguem fingem não perceber que o seu fim está próximo. Para o evitar, tudo têm feito para deturpar as regras da democracia: alteraram sozinhos a Constituição, a lei eleitoral, persistem em não anunciar as listas com os registos eleitorais, procuraram interferir na vida interna dos partidos da oposição anulando por via judicial a vontade dos seus militantes, condicionaram as sondagens por via legal, utilizam a polícia para reprimir e prender os que têm a coragem de se manifestar, impedem o acesso das vozes dissonantes aos órgãos de comunicação social. O desplante é tal que, na mesma entrevista à RTP, João Lourenço afirmou que nada impedia ao líder da oposição que pedisse aos canais públicos para ser entrevistado. Sim, Angola é hoje o país onde o seu Presidente afirma a menos de dois meses das eleições que o líder da oposição nunca foi entrevistado pelos canais públicos do seu país: porque nunca pediu!

Ao contrário do que João Lourenço e seus próximos pensam, o eleitor angolano, hoje, é maduro e sabe o que quer. O povo e a sua vontade não lhe pertencem. Tal não tem impedido que João Lourenço venha desfilando com fausto junto dos grandes parceiros de Angola exibindo brilho alheio. Enquanto pelo mundo, os que sequiosos de continuar a beneficiar das riquezas de Angola lhe elogiam as vestes, fingindo não perceber que há uma fraude em curso. A juventude no nosso país, porém, como na fábula de Hans Christian Andersen, sem emprego, sem acesso à educação e à saúde, passando fome e as maiores privações olha para todo este luxo e grita: “O rei vai nu!”

Vários países africanos têm vindo a protagonizar alternâncias de poder pacíficas e benéficas para as suas populações. Pelo que 46 anos depois não deveria ser vista com drama aquela que sabemos ser a regra de ouro das democracias: a possibilidade de alternar governos de uma forma natural e pacífica.

Fora de Angola, porém, não faltam interesses corporativos e governos que desconfiam das mudanças. Angola é hoje essencial no fornecimento de matérias-primas, energéticas, mas não apenas, e muitos preferem fingir que pode funcionar em Angola algo que nunca aceitariam nos seus sistemas democráticos.

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