Em Cacuaco: FRACASSO DA PNA NO COMBATE À CRIMINALIDADE FORÇA MORADORES A ABANDONAR RESIDÊNCIAS

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Os moradores reclamam de quase tudo, desde assaltos na via pública, assassinatos com recurso a armas brancas e de fogo, violações sexuais e outros males. Os amigos do alheio tomaram de assalto o bairro da Pedreira, em Cacuaco, ante a inércia da Polícia Nacional.

Por: Costa Kilunda

“No bairro, existem vários grupos de marginais que realizam assaltos à mão armada. E o que mais nos aflige é o facto de existir aqui uma unidade policial, mas com défice, quer de meios como de homens, capazes de dar resposta às inquietações dos moradores”, começou por dizer Dielembaca João de Deus, coordenador do quarteirão n.º 8 do bairro Pedreira.

De acordo com este cidadão, um dos primeiros moradores da zona, a Polícia nunca conseguiu responder a tempo e hora, sempre que foi solicitada a intervir. Por via disso, explicou, quem dita as regras são as associações de malfeitores, muitos dos quais provenientes dos Mulenvos de baixo, um bairro vizinho.

Estas associações, continua, cujos integrantes têm idades compreendidas entre 17 e 25 anos, tomaram de assalto o bairro, ante a inércia dos agentes da corporação, e estão a obrigar muitos moradores a abandonar as suas residências por conta das acções criminosas.

O mais preocupante, no meio de tudo isso, elucida o também primeiro secretário do MPLA na localidade, tem que ver com o facto de, nas poucas vezes que a Polícia detém um marginal, em poucos dias este é devolvido à liberdade. “Esta prática de soltar os bandidos poucos dias depois da sua detenção deixa-nos a todos com o coração às mãos”, enfatiza.

Por seu turno, Maria Camana, outra moradora da Pedreira, contou que, recentemente, foi alvo de um assalto no interior da sua residência. “Aquilo aconteceu durante uma madrugada e apenas nos apercebemos de que estávamos a ser assaltados quando ouvimos os marginais, no quarto das meninas, perguntando pelo quarto dos pais”, afirmou, que até hoje não entende como o grupo de marginais escalou o muro da sua casa, com mais de três metros de altura e com cerca eléctrica.

“Quando percebi da existência deles simplesmente saí do quatro e entreguei-me aos algozes para não fazerem mal às meninas”, contou. De acordo com ela, estavam no interior da sua casa quatro marginais, fortemente armados, tendo um deles solicitado que lhes entregassem a arma de fogo que possuíam. “Não temos e nunca tivemos arma em casa”, respondera a senhora que, aos prantos, via o marido a entregar os únicos 35 mil kwanzas que tinham em casa.

Insatisfeitos, disse Maria, o quarteto iniciou uma tortura impiedosa a todos os presentes, estando ainda visível nalguns dos seus membros as marcas da violência a que fora submetida.

Ademais, segundo fez saber à nossa reportagem um outro morador, as quatro filhas de Maria Camana terão sido abusadas sexualmente por aqueles marginais naquela noite. Entretanto, tal informação foi negada pela mãe das alegadas vítimas.

“Pegaram a minha menina e a colocaram no meio deles, disseram-nos se não acrescentássemos dinheiro, violá-la-iam. Eles tentaram, mas dada a resistência que ela ofereceu, não conseguiram”, explicou.

Comité do MPLA vandalizado

Um membro do comité de acção local do partido MPLA, que preferiu ocultar sua identidade, no sentido de evitar futura represália, disse que a onda de criminalidade violenta naquela zona disparou consideravelmente. Dito de outro modo, está fora de controlo.

“Precisamos de uma grande ajuda da Polícia, bem como de vós, órgãos de comunicação, no sentido de transmitirem aos nossos superiores os horrores que aqui vivemos dia-após-dia”, desabafou, ao apelar que “se a Polícia não está a conseguir conter a delinquência, que peça auxílio aos militares”.

A comissão de moradores do quarteirão n. º 10 do mesmo bairro, onde também funciona o Comité de Acção do Partido (CAP) MPLA, não foi poupado pelos amigos do alheio. A sede do partido dos camaradas já foi vandalizada por duas ocasiões, tendo o último ocorrido na noite de segunda-feira, 10 de Agosto.

Da acção, foram furtados todos os moveis, entre cadeiras, mesas e secretárias – inclusive os bandidos tiveram tempo suficiente para arrombar e levar uma janela de ferro que já tinha sido chumbada na parede. Apenas cartazes com o rosto do PR, colocados na parede restaram para contar história.

Neste momento, quem for naquela instituição, requerer algum tipo de serviço, sentar-se-á em pedras ou blocos de cimento, enquanto é atendido pela coordenadora que também se acomoda num objecto igual.

Militares culpam Polícia pelo aumento da criminalidade

“Se estes crimes acontecem o único culpado é a Polícia”, defenderam dois militares afectos à casa militar do PR. Ambos foram unânimes ao afirmar que o fracasso e consequente dilatação da delinquência deve-se pelo mau serviço prestado pelas forças da Ordem.

Muhongo Salvador (nome fictício) disse que, apesar de ser especialista em questões de segurança, precisa da fiel cooperação da Polícia local, no que concerne ao combate à criminalidade violenta praticada por grupos armados. Disse que a sua casa já foi alvo de assalto e, em consequência disto, o seu irmão mais-novo ficou com um ferimento de catana na cabeça.

“Para a minha surpresa, depois de detidos os meliantes que perpetraram aquela acção, a Polícia os informou que quem cooperou para a sua detenção é o militar e dono da casa”, notou, sublinhado que esta acção da Polícia abre um precedente perigoso. “Isso deixa-me preocupado. Se nós, os militares, damos uma informação e ela vaza, o que acontecerá aos civis que já se sentem vulneráveis? ”, questiona, para depois dizer que deste modo a própria Polícia coloca, ainda mais, a vida dos cidadãos em risco.

Por outro lado, fez saber que quando a Polícia revelou a sua identidade, os parentes dos detidos dirigiram-se até a sua casa, apregoando a inocência dos seus filhos. “Senti-me ameaçado e tive que negar a minha participação na detenção dos mesmos”, disse.

Por sua vez, seu colega, que mora no bairro há mais de uma década, que também preferiu omitir sua identidade, disse que há dozes anos para cá já enfrentava tais problemas. Entretanto, com o passar do tempo e depois de várias denúncias, a situação abrandou. Todavia, explica, decorridos alguns anos, as forças de defesa e segurança “adormeceram” e a situação agudizou-se novamente.

“Os constantes actos de criminalidade violenta forçou várias pessoas a abandonarem as casas e irem morar noutras zonas aparentemente menos perigosas”, afirmou, acrescentando que ele mesmo aventou abandonar, também, o bairro por conta das acções dos marginais.

Igual ao seu colega, afirmou que, no âmbito do programa de policiamento de proximidade, muitos moradores decidiram denunciar os prevaricadores da zona, mas, para o seu espanto, têm sido as próprias autoridades que denunciam os informantes.

Este militar defendeu, também, que a punição que se dá aos detratores é bastante branda, pelo que, a manutenção destes sob custódia reduziria, em grande medida, o flagelo da criminalidade na circunscrição.

Por fim, contou que tem testemunhado os assaltos a que muitos dos seus vizinhos são alvos, o que o deixa desolado. “Não posso deixar de sofrer, também, uma vez que vejo os meus vizinhos nestas condições”, lamenta.

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