PRIMEIRO SEMESTRE DE 2020 SUPERA OS DOIS ÚLTIMOS ANOS COM MAIS DE 700 CASOS

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Nos anos 2018, 2019 e 2020 (primeiro semestre), Luanda superou os registos das outras 17 províncias, com 826 casos de suicídio, de um total de 1.984 ocorrências em todo o território nacional. Os dados, de Janeiro a Junho último, apresentam um cenário apontado como bastante preocupante pela especialista ouvida pelo `O Crime´.

Dumilde Fuxi

No referido período, seguem-se as províncias da Huíla (118), Moxico (117), Lunda Sul (105) Benguela (101), Cuanza Sul (100), Malanje (96), Huambo (83), Lunda Norte (63), Bié (63), Cunene (62), Uíge (53), Cuanza Norte (48), Zaire (44), Namibe (36), Cabinda (23), Cuando Cubango (23) e Bengo (18).

De acordo com o Serviço de Investigação Criminal, só no primeiro semestre deste ano, foram registados 739 casos de suicídio em Angola. O número supera os registos de 2018 e 2019, com 651 e 590 casos, respectivamente.

De igual modo, de Janeiro a Junho deste ano, a província de Luanda, com 460 casos, foi a que mais suicídios registou, seguida pela Lunda Sul (46), Benguela (37), Cuanza Sul (26), Huambo (23), Moxico (19), Malanje (18), Huíla (18), Zaire (17), Lunda Norte (14), Bié (14), Cuanza Norte (11), Cunene (8), Namibe (8), Cabinda (7), Bengo (6), Uíge (5) e Cuando Cubango (2).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alista o suicídio entre as causas de morte mais frequentes no mundo. O mês de Setembro é dedicado à sua prevenção e ficou conhecido como “Setembro Amarelo”, em função do propalado suicídio cometido pelo americano Mike Emme, em 1994, mecânico, que tinha recuperado e pintado de amarelo um Mustang 68.

No funeral, os amigos e familiares do jovem de 17 anos distribuíram cartões com fitas amarelas e mensagens de apoio às pessoas que estivessem a enfrentar o mesmo desespero que Mike, cujos pais deram início a uma campanha de prevenção ao suicídio, denominado yellow ribbon, “fita amarela” em português.

“Ela era a menina mais doce e pura”

Na primeira quinzena do passado mês de Novembro, uma adolescente de 11 anos jogou-se do quinto andar de um edifício na Avenida Brasil, em Luanda, após chamada de atenção da irmã mais velha.

De acordo com os familiares, cuja identidade preferiram reservar, não há motivos aparentes que justifiquem a acção de Yolanda Miguel (nome fictício), pois “era uma menina doce, podiam ralhar com ela, mas, passados poucos minutos, reconhecia a falha e ficava tudo bem”.

No dia do infortúnio, após um comportamento inadequado da menina, esta foi penalizada a permanecer no quarto. Um tempo depois, enquanto as irmãs cuidavam dos deveres de casa, Yolanda dirigiu-se à varanda, descalçou e atirou-se do muro abaixo.

A menor, explicam, nunca terá apresentado desvios comportamentais ou sinais de que viria a cometer suicídio. Órfã de pais há seis anos, encontrou o aconchego no amor da avó e das irmãs, a quem sempre nutriu especial afecto.

Enquanto vivos, teve uma relação saudável com os pais e nunca passou por alguma situação que obrigou a intervenção de um especialista. “Era a menina mais doce e pura que podia existir, com um carácter incomparável. Quando abraçava, era mesmo de verdade. Muito calma e ponderada, pedia o que quisesse e a discussão com a irmã não passava da definição do lanche. Ela não sorria apenas com a boca, com os olhos também. Até hoje, não sabemos por que isso aconteceu”, lamentam os familiares.

Aventa-se, no entanto, a possibilidade de submeter a irmã mais velha ao acompanhamento de um especialista, dado o sentimento de culpa que carrega, por ter chamado a atenção à menor.

“A minha irmã era muito retraída, não partilhava os seus problemas”

No mesmo período, uma moradora do bairro Calemba 2 terá posto fim à própria vida e a do filho, como consequência dos vários problemas que transportava numa relação de aproximadamente dois anos.

Isabel Tomás e o filho de 1 ano foram encontrados, já sem vida, no tanque de água, e o outro, de 4, (fruto da anterior relação da mãe), em prantos e totalmente molhado, à porta de casa. Os familiares apontam o esposo como o homicida da mulher e do próprio filho, ao passo que os vizinhos, alguns deles, muito próximos ao casal, descartam essa possibilidade e adiantam que, quando isso aconteceu, o, agora, suspeito estava fora de casa, tendo apercebido-se por intermédio de um amigo.

Uma amiga de Isabel, que não quis ser identificada, em função da postura que a família da confidente mostrava, segredou a este jornal que, no dia da sua morte, a jovem, de 28 anos, apresentava um comportamento anormal, mais preocupante, ainda, por ser uma pessoa bastante introvertida.

“A Isabel nunca foi de usar roupas curtas e ficar sem cozinhar. Mas, naquele dia, fez isso. Ela e os filhos vestiram-se completamente de branco e ainda gozei com ela, porque não era comum. O esposo não estava, por isso não pode ser ele a colocá-los no tanque e deixar o enteado vivo”, disse, revelando que a amiga morreu grávida.

A mesma fonte adiante que os problemas do casal se agudizaram quando o esposo, desempregado, estava em fim de uma formação que lhe valeria uma vaga de emprego fora de Luanda, e exigiu que, para a viagem, a esposa deixasse o enteado de 4 anos, um posicionamento que não foi acolhido pela mãe, resultando em vários momentos de angústia.

“A minha irmã era muito fechada, não partilhava os problemas que passava, só dizia que estava tudo bem. Mas, dias antes da sua morte, decidiu convocar a família para dar solução às situações que vivia na relação, já prestes a terminar”, lembrou Rafael Bengue.

Ao abordar a situação, os vizinhos e familiares recordaram que, durante o tempo que o esposo esteve desempregado, era Isabel que ajudava nas despesas de casa, com o dinheiro que conseguia do comércio.

No dia em que foram a enterrar Isabel Tomás e o filho, os familiares da malograda atearam fogo e destruíram as mobílias do casal. Até então, o esposo, tido como o principal suspeito do caso, continuava detido pelo Serviço de Investigação Criminal, sob o processo número 8425/20.

“O isolamento social levou muitas pessoas ao stress”

De acordo com Domingas Tabo, psicóloga, as pessoas recorrem ao suicídio, porque querem pôr fim ao sofrimento que as acomete e não concretamente tirar a própria vida. Outrossim, quem comete este acto não está no seu perfeito juízo.

O uso de substâncias psicoativas, transtornos mentais, desemprego, pobreza, decepções amorosas, expectativas exageradas e frustradas, baixa auto-estima, sentimento de invalidez e auto-cobrança são algumas razões que a psicóloga clínica aponta como motivações do indivíduo suicida.

“Quem atravessa essas situações carece de muito apoio e acompanhamento de profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras. Os transtornos psiquiátricos fazem a pessoa perder o discernimento. Vai tendo percepção e sensação através das alucinações e delírios”, explica, exemplificando os casos de indivíduos guiados por uma voz de comando que o orienta a tirar a própria vida.

Aconselha, por isso, as famílias a manterem sob vigilância objectos como fósforo, facas e outros que possam ser usados para se suicidar ou tirar a vida de outro.

Domingas Tabo chama atenção ao cuidado com a auto-cobrança, alertando para que as pessoas sejam flexíveis consigo mesmas, sem ter que se comparar com os outros. A comparação constante, adverte, leva o indivíduo à baixa autoestima e faz com que se sinta inválido, o que pode levá-lo ao isolamento e, posteriormente, ao suicídio.

Quanto à automutilação, a especialista explica ser uma forma que as pessoas encontram para expressar os seus sentimentos, projectando para o corpo o que fariam com o próximo. Recomenda, por isso, a prática de actividades relaxantes, como ouvir músicas, regar as plantas e, no caso de isto não ser suficiente, consultar um especialista.

Na mesma senda, a psicóloga clínica esclarece que o risco de suicídio é maior em pessoas melancólicas, por serem muito desmotivadas e preferirem manter-se no “seu mundo”.

Olhando para os dados sobre suicídios, registados pelo Serviço de Investigação Criminal, ressaltou que o primeiro semestre deste ano contribuiu bastante para o aumento do número de casos, dada a perda de empregos por muitas pessoas que, apesar de pertencerem a mesma família, não se conheciam efectivamente.

“O isolamento social juntou as famílias e levou muitas pessoas ao stress, aumento da irritabilidade, tristeza, sentimento de falta, exaustão e desgastes”, lembrou, acrescentando que situações como a perda de autoridade sobre a esposa e os filhos podem levar o indivíduo a corroer-se e sentir-se injustiçado, rejeitado e humilhado, achando que os outros não o respeitam e, por este motivo, não encontrar motivos para continuar a viver.

Contudo, Domingas Tabo considera bastante preocupante o quadro apresentado pelo SIC, ao qual as autoridades competentes não podem encarar de ânimo leve, mas dedicar especial atenção.

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