SERVIÇO HUMANIZADO NOS HOSPITAIS AINDA É UMA UTOPIA

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Hospital é o estabelecimento destinado ao diagnóstico e tratamento de doentes, com atendimento humanizado. É assim um pouco por todo mundo. Em Angola, porém, os pacientes continuam a sonhar com dias melhores nas unidades hospitalares.

Jaime Tabo

Nesta semana, o O Crime girou por algumas unidades, onde as reclamações continuam as mesmas. Ou seja, passam os dias, mudam-se os ministros, no entanto, permanecem os problemas: atendimento não humanizado, falta de assistência medicamentosa e assistência médica demorada são alguns.
A ronda começou no Hospital Municipal de Talatona, localizado na Vila da Gamek, que tem a missão de, como de resto, “garantir um atendimento humanizado da população por meio de serviços preventivos e curativos, com equipas multidisciplinares, com vista a reduzir o índice de mortalidade no município”.
Entretanto, não é esta a realidade dos utentes. Semelhantemente a outras unidades, esta é uma prova de que o Sistema Nacional de Saúde está deficitário. No entanto, nem tudo está mal, todavia, muita coisa não vai bem. Para se ter uma ideia, eram perto das 14 horas e mais de cem pessoas ainda aguardavam pelo atendimento que, para aqueles pacientes e acompanhantes, está longe de ser humanizado.

No município de Luanda, Miramar, está a Maternidade Augusto Ngangula. Nela esteve Iracelma José que conta os dias menos bons que ali viveu recentemente. Deu entrada à maternidade no dia 7 de Dezembro último, onde, depois de algumas complicações, foi submetida à cesariana, porém, sem o seu consentimento.

No pátio daquela unidade, além dos adultos, a imagem era de crianças fatigadas que dormiam nos bancos corridos de madeiras, o que cansava as suas costelas. “Nada mudou, os serviços continuam os mesmos”, afirmam.
Na área de maternidade, Margareth Baptista, parturiente, foi observada pelas 06horas, tendo a técnica garantido que voltaria a fazer o mesmo procedimento dentro de uma hora. No entanto, passavam oito horas e a nova observação não aconteceu. “O atendimento é péssimo!”, exclamou, destacando que o problema maior naquela unidade é a falta de informação, pois, depois de observada, sem mais alguma informação, ordenaram-lhe apenas que esperasse no lado de fora. A jovem recorda que foi a primeira pessoa na sala de parto, por isso, diz não entender a razão de não oferecerem mais esclarecimentos.
Agastados, alguns utentes diziam: “é sofrimento, vamos votar noutro presidente para nos governar”, entretanto, outros retorquiram, “não adianta, com batota, vão ganhar mais”. Entre outros assuntos, mulheres revelavam que os maridos, agora, por causa do desemprego, só jogam Angofoot. Estas eram as conversas para se distraírem, enquanto aguardavam pelo demorado atendimento.
Rosa Jamba tem 29 anos e é mãe de quatro filhos, três dos quais caíram doentes, com sinais e sintomas de paludismo. Por volta das 09 horas, chegou àquela unidade, mas só às 14 horas foi “atendida”. Na consulta geral, o médico orientou-a a ir para o Banco de Urgência (BU) para uma assistência médica e o exame de Pesquisa de Plasmódio (PP). Mas, naquele dia, voltou à casa sem medicação nem receita, por conta do laboratório que não tinha materiais laboratoriais para o exame.
No BU foi forçada a esperar horas sem uma informação plausível. “Vai só lá fora e espera!”, orientou um enfermeiro. Com isso, os repórteres foram à procura desse profissional para esclarecimentos. Este, por sua vez, explicou que o BU estava cheio e que a senhora precisava esperar, uma vez que os seus filhos não se encontram em um estado muito grave, se comparado com os que estavam no interior, pelo que podia aguardar.
Engana-se quem pensa que os pacientes são os únicos que aguardam por melhores dias nos hospitais. Na secção de triagem, apenas duas funcionárias atendiam os mais de 100 pacientes a quem deviam ser verificados os sinais vitais. O espaço é pequeno e o calor abrasador, por isso, abanavam-se com cadernos e folhas de papel para amezinhar a situação, enquanto trabalhavam.
“De quem é então a culpa das enchentes?” é a questão que se levantava naquela roda, mas a nossa equipa de reportagem foi buscar a resposta no director geral daquele hospital, médico-cirurgião, Domingos Jacinto, e trazemo-la numa entrevista na próxima edição.
Não muito diferente está o Hospital Municipal de Viana, no Kapalanga, onde a cidadã Arleth Sá Cristo acorreu no dia 30 de Março com a sua filha menor de idade, adoentada em estado grave. Consigo tinha uma guia de transferência de um posto. No local, foram prontamente atendidas no Banco de Urgência, pois a criança estava com a hemoglobina baixa. Depois disso, o médico assistente solicitou uma bateria de exames, mas, porque o laboratório do hospital estava inoperante, foram feitos no exterior da unidade, ao custo de AKZ 8.500,00 (oito mil e quinhentos mil kwanzas).
Durante o dia, a enchente é excessiva e revela a menoridade daquela unidade hospitalar para dar resposta aos muitos casos de saúde no município mais populoso de Luanda. Pessoas sem máscaras e famintas reclamavam da demora e a falta de qualidade no atendimento. “Acorrer a este hospital é apenas por falta de opção. Se chegas em estado grave, é preciso ter sorte, porque normalmente as pessoas morrem”, contam.
No município de Luanda, Miramar, está a Maternidade Augusto Ngangula. Nela, esteve Iracelma José que conta os dias menos bons que ali viveu recentemente. Deu entrada à maternidade no dia 7 de Dezembro último, onde, depois de algumas complicações, foi submetida à cesariana, porém, sem o seu consentimento.
Por outro lado, denuncia o facto de ser cobrado ao seu familiar um valor de AKZ 20.000,00 (vinte mil kwanzas) por uma doctora, através de uma enfermeira, para que fosse submetida a procedimento cirúrgico.
No dia seguinte, deu à luz ao pequeno Gabriel Lucas, e, poucos dias depois, recebeu a alta médica, ainda com algumas dores, e, por isso mesmo, ficou apenas seis dias em casa, sendo que, no dia 17 de Dezembro, regressou, tendo sido internada.
Como outras parturientes, Iracelma corrobora que as enfermeiras são boas, mas dessa lista exceptua a profissional Josefina que, conta, grita com as internadas e as intimida. Conforme conta, o maior problema daquela maternidade é a falta de materiais para os curativos de feridas. “todo material é adquirido pelos familiares dos pacientes com recursos próprios”, garante.
Plataforma digital pode mitigar os problemas
Ademais, a ministra da saúde, Sílvia Lutucuta, que falava por ocasião da Semana Nacional da Humanização, garantiu que a experiência mostra que um grande número de queixas e reclamações dos utentes pode ser resolvido, ou pelo menos minimizado, quando estes se sentem ouvidos, compreendidos e respeitados pelos profissionais de saúde.
Por outro lado, foi lançada uma plataforma digital que servirá para melhorar os serviços de atendimentos nas unidades do país, mas esta será experimental durante um mês, e mais tarde será disponibilizada em todo o território nacional. Com esta, pretende-se diminuir as enchentes nos hospitais, facilitar o atendimento, diminuindo, consequentemente, os largos tempos de espera.
E assim, em vários outros hospitais da capital, as histórias se repetem, mudando apenas quem as sofre, salvando-se raras excepções, de profissionais que atendem com o amor e carinho que se impõem.

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