CASO DE BURLA MILIONÁRIA DA XTAGIARIOUS FINANCE: VÍTIMAS AGASTADAS COM MOROSIDADE DO PROCESSO JUNTO DO SIC-GERAL

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Centenas de clientes da Xtagiariuos Finance mostram-se agastados com a morosidade do processo contra o proprietário da empresa, Edson Caetano de Oliveira junto do SIC-Geral.

Maiomona José

Oprocesso de burla, movido por centenas de clientes contra o empresário Edson de Oliveira, também conhecido por “Dom Saramago” já dura cerca de um ano, e, até então, não há nenhuma resolução junto das autoridades competentes, facto que não tem agradado vários clientes, sendo que estão em causa mais de dois mil milhões de kwanzas.

Dentre os processos crimes abertos Pelas vítimas, em vários postos policiais pertencentes ao Comando Municipal de Viana e do SIC – Luanda, destacam-se os processos Nº 30235/01UV, Nº 15923/022, Nº 26/24-2014, Nº 2257/021-D, que até à presente data, por motivos desconhecidos não têm resolução.

O grupo que se intitula “Lesados pela Xtagiariuos”, composto por mulheres e homens que aplicaram valores monetários para posteriormente, durante seis meses, serem reembolsados com uma taxa de 15 a 25 por cento de juro, sobre o capital investido, revelam que após o comunicado do Banco Nacional de Angola (BNA), sobre a ilegalidade dos serviços prestados pela empresa, foram abertos vários processos crimes contra o CEO da referida empresa no caso Edson de Oliveira, até então em paradeiro incerto. 

Porém, nada, até à presente data, surtiu efeito, gerando entre eles sentimento de frustração, alegando um possível encobrimento das autoridades a Edson de Oliveira.

Após várias tentativas falhadas no SIC – Luanda, Ministério da Justiça, entre outros órgãos onde esses acorreram, no dia 6 de Julho do ano em curso, o grupo de lesados descontentes com a morosidade do processo deslocou-se as instalações do Serviço de Investigação Criminal (SIC-Geral), em Cacuaco, onde foram recebidos pelo chefe de Departamento dos Crimes Financeiros, que deu garantias que o processo está em curso e não pode avançar com mais detalhes sob pretexto de que qualquer informação proferida por ele poderá interferir na investigação. 

Vale referir ainda que alguns clientes estão sendo ouvidos na porta número 74 do Comando Provincial de Luanda, pelo Instrutor Peterson Campos.

De certo, é que do lado dos lesados, nem “água vem, nem água vai”, tudo continua exactamente igual há cerca de um ano, desta feita, várias manifestações foram feitas, inclusive denúncias ao IGAE (Inspeção Geral de Administração do Estado), porém, Edson de Oliveira continua livre e sem prestar contas a autoridades, prejudicando de tal forma centenas de cidadãos que aplicaram milhões naquela empresa, que hoje não têm o que comer por falta de dinheiro.

São mais de três mil clientes que foram burlados por Edson Caetano de Oliveira em mais de dois mil milhões de kwanzas envolvidos, que até agora não há resolução. Muitos clientes viram suas vidas a decair, sonhos cancelados e outras realizações adiadas; alguns tiveram a saúde condicionada e uns chegaram mesmo de perder ente queridos por falta de dinheiro para prestar alguma assistência médica, como conta Cristina Guilherme, 39 anos de idade, que no dia 23 de Novembro de 2021 perdeu a filha de 18 anos de idade, por conta de uma complicação no sistema respiratório. “Minha filha necessitava de uma intervenção cirúrgica que tinha de ser feita no estrangeiro e com o dinheiro cativado na Xtagiariuos Finance, apelei ao Edson de Oliveira que reembolsasse o valor aplicado, este mostrou-se insensível ao meu problema, o tempo passou, o quadro clínico se complicou e infelizmente ela faleceu”, lamentou, para depois clamar por justiça.

O jurista e especialista em Direito Económico, Domingos Francisco, em uma entrevista concedida à Rádio Nacional de Angola, afirma que este é um caso que já deveria ser assumido pelo Ministério Público, dada a sensibilidade e os níveis que tem atingido.

POSICÃO DO BNA QUANTO AO CASO

O Banco Nacional de Angola, em um e-mail enviado a um grupo de lesados que procurou a instituição como parte da solução do problema, demarcou-se de qualquer responsabilidade sobre o caso Xtagiariuos Finance, aconselhando-os a dirigirem-se aos órgãos de justiça.

Desde o dia 02 de Agosto de 2021, que o BNA tornou público, em um comunicado, que faz referência que a Xtagiariuos Finance não está habilitada para exercer qualquer actividade financeira sujeita a sua supervisão, desde prestação de serviços de pagamentos, captação de depósitos e aplicação monetária, até hoje, não há nenhum pronunciamento da mesma sobre as contas que foram bloqueadas.

Quase um ano se passou e os lesados sentem que o Banco Nacional de Angola também teria uma palavra a dizer sobre o destino do dinheiro congelado a seu pedido nas contas do proprietário da Xtagiariuos Finance, Edson de Oliveira, no Banco Angolano de Investimento (BAI). “Não há nenhuma informação se as contas continuam ou não congeladas”, disse Gaspar de Almeida, um dos investidores.

SUPOSTA CUMPLICIDADE ENTRE EDSON DE OLIVEIRA E COMANDANTE MUNICIPAL DE VIANA

Dentre várias acções movidas pelas vítimas insatisfeitas com a empresa junto das autoridades no município de Viana, nenhuma teve efeito, o que leva os lesados a crer num possível encobrimento por parte do comandante municipal de Viana, Gabriel Jorge dos Santos Capusso às acções de Edson de Oliveira.

Segundo as vítimas, vários mandatos de captura foram emitidos, mas sem resultados, inclusive, contam ainda que por iniciativa independente se apoderaram de alguns carros de Edson de Oliveira como garantia de serem pagos. Os automóveis foram levados por eles a esquadra policial do Luanda-Limpa, no zango 4, com intuito de promover negociações entre eles e “Dom Saramago”, em contrapartida, para o espanto dos mesmos, passados alguns dias, nenhum carro mais parqueava naquela esquadra policial. “Não sei como, mas o Edson conseguiu tirar todos os carros”, declarou Bumba Francisco Joaquim, outra vítima da Xtagiariuos Finance, acrescenta ainda que, após algumas acções contestárias, contra o comandante da esquadra do zango 4 sobre o sucedido, foi alistado como criminoso, inclusive foi algemado sem qualquer motivo por elementos afectos aquele posto policial.

Para os demais clientes, esta acção da polícia de Viana revela que não é do interesse do Comando Municipal de Viana capturar Edson de Oliveira. “Pois se o quisessem, já o teriam feito”, disse Bumba Francisco, que, encarecidamente, pede a máxima urgência do SIC-Geral e do Ministério Público em solucionar este dilema que, há meses, tem tirado tranquilidade a centenas de pessoas.

Contudo, o Comandante municipal de Viana, Gabriel Jorge dos Santos Capusso, nega qualquer tentativa de acobertar “Dom Saramago” e de fazer parte do esquema fraudulento do acusado.

Entre as várias alegações, tanto dos clientes como a do próprio comandante municipal de Viana, pesa o facto de que Edson Caetano de Oliveira continuar foragido e em dívida com os clientes.

POR ONDE ANDA EDSON DE OLIVEIRA “DOM SARAMAGO”

Após vários mandados de captura emitidos pelo SIC-Kinaxixi, o certo é que, até ao momento, não se sabe de concreto o paradeiro do CEO da Xtagiariuos Finance.

De acordo com fontes próximas, o mesmo mudou de residência (Luanda-Limpa, zango 4- Viana) e tem-se desfeito de alguns bens como apartamentos e carros afim de emigrar para o estrangeiro, inclusive teria adquirido um apartamento em Cascais – Portugal.

Segundo uma fonte, a sua esposa identificada por Anabela Oliveira deu à luz recentemente a uma criança, e isto atrasou o processo de emigração.

Em contrapartida, os clientes contactados pelo Jornal O Crime, afirmam que “Dom Saramago” tem-se deslocado em algumas artérias do município de Viana em companhia de homens armados que aparentam ser do Serviço de Investigação Criminal – SIC, facto este que não agrada as vítimas que têm esperança de um dia reaverem os seus valores monetários, e questionam as autoridades o porquê da morosidade do processo, uma vez que várias participações foram feitas junto das autoridades de Viana e do SIC-Geral?

ONDE TUDO COMEÇOU?

Segundo relato das vítimas, tudo começou em 2018, mas só em Maio de 2020,  o “iluminado” Edson Caetano de Oliveira, ou também denominado “Dom Saramago” deu entrada a vários documentos nos órgãos do Estado afim de legalizar a empresa e dar início aos serviços financeiros. 

Como consta em alguns documentos, a empresa foi aprovada a 27 de Maio de 2020, sob designação de Xtagiariuos Finance – Prestação de Serviços Financeiros, (SU), LDA, contribuinte fiscal nº 5000514861, situada no distrito urbano do Zango 3, município de Viana.             

A ideia central do negócio era investir com o dinheiro das aplicações dos clientes, gerar receita e outras fontes de rendimento e posteriormente reembolsar os aplicadores, ideia que era vista como “brilhante” em papel, mas que na prática tornou-se um verdadeiro calvário para muitos que acorreram a esta negócio ou forma fácil e rápida de ganhar dinheiro.

A princípio, o Marketing dos serviços era feito de boca-a-boca, onde os primeiros clientes levavam as informações a outros e a empresa crescia. Em 2021, após ganhar credibilidade no mercado, a empresa lançou o “Produto Rende +”, produto este que fez com que militares, polícias, bancários, músicos, entre outros profissionais da praça nacional aplicassem valores na referida empresa.

O “Produto Rende +” consistia na aplicação de valores monetários iguais ou superiores a cem mil kwanzas, com uma taxa de juros que variava entre 15 e 30 por cento do valor aplicado, dependendo das promoções da empresa. Quanto mais alto o valor aplicado, maior era a taxa de juros. Por exemplo: numa aplicação de um milhão de kwanzas, o cliente recebia mensalmente 150 mil kwanzas durante quatro meses, no quinto mês não recebia nada, sendo este considerado pela empresa um “período de carência” em que a mesma lucrava com o dinheiro aplicado, e no sexto mês o cliente é reembolsado o valor aplicado inicialmente, fazendo um total de 1.600.000 AKZ (um milhão e seiscentos mil kwanzas), e aí por adiante.

O produto ganhou destaque após uma propaganda massiva nos mídia, como o Fly Podcast que havia estabelecido parceria com “Dom Saramago” nos finais de Fevereiro de 2021. Após a publicidade no programa de entretenimento do Rapper Fly Squad, a empresa ganhou centenas de clientes. O dinheiro dos clientes foi utilizado para aquisição de viaturas top de gama como Jaguar, apartamentos em algumas centralidades da cidade capital, realização de actividades solidárias, doações e concepção de bolsas de estudos, entre outros fins pessoais. 

Porém, tudo não passava de uma pirâmide financeira, onde uns são beneficiados e outros prejudicados, como é o caso de centenas de clientes que hoje reivindicam por uma solução urgente por parte das autoridades competentes. 

O “império” Xtagiariuos Finance começou a desmoronar após o comunicado do Banco Nacional de Angola, a 02 de Agosto de 2021, e até então, Edson de Oliveira tem sido um “bicho de sete cabeças” para aqueles que acreditaram nas suas promessas, e segundo os mesmos, já tentaram ao diálogo, mas “Dom Saramago” após várias promessas, mantém-se relutante em pagar o que deve e tem-se rindo, inclusive, tem ameaçado aqueles que acorrem a autoridades com alguma esperança de reaver os seus dinheiros.

O QUE É FEITO DA XTAGIARIUOS FINANCE HOJE?

A Xtagiariuos Finance – Prestação de Serviços Financeiros, (SU), LDA, contribuinte fiscal nº 5000514861, situada no distrito urbano do Zango 3, município de Viana, empresa que, outrora, acolhia centenas de clientes em busca do sonho da casa própria, realização de casamento, entre outras várias questões, por meio de uma aplicação a prazo de valores monetários com taxas de juros de longe superior a dos bancos comerciais, tornou-se num escombro, um verdadeiro chiqueiro.

No início deste ano, por conta de uma confusão gerada por clientes e funcionários insatisfeitos com atrasos salariais e pagamentos das aplicações, o referido estabelecimento foi vandalizado e transformado num depósito de lixo.

Hoje, nada de valor resta naquele imóvel, senão, os amontoados de lixos e fezes ao redor. Tudo indica, que o proprietário parece não se importar com o sucedido e continua foragido da justiça, e pesam sobre si acusações de crimes de burla qualificada, que segundo o Código Penal vão de 3 a 4 anos de prisão.

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