Sem salários há mais de 10 anos: FUNCIONÁRIOS DA MORGUE DO KILAMBA KIAXI AMEAÇAM PARALISAÇÃO DOS SERVIÇOS

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Pela situação deplorável, cobrar, embora de forma ilegal, um valor de dois mil a mil e quinhentos kwanzas, a quem tem o seu ente querido no necrotério, tem sido o recurso dos trabalhadores, a fim de garantir o sustento das respectivas famílias.

Por: Honorina Kiampava

Uma morgue com capacidade para conservar mais de dez mil corpos e que está em funcionamento desde Julho de 2005 apresenta, de um tempo para cá, diversas anomalias, desde a má conservação dos cadáveres a atrasos e, até mesmo, falta de salários.

Afonso Paxe é um dos primeiros funcionários desta morgue e conta que a situação não acontece apenas aí. “Em quase todas as morgues, o atraso salarial tem sido um dos motivos que levam muitos funcionários a pedirem “gasosa” aos familiares que trazem o corpo dos seus entes queridos”.

“É complicado trabalhar sem salário, saco vazio não fica em pé. Precisamos também desse dinheiro para sustentar as nossas famílias. Vontade de trabalhar temos, mas, nessas condições, ninguém aceita”, reclama.

Pai de cinco filhas aos 57 anos, esse residente de Viana tem de percorrer grandes distâncias, às vezes à pé, para chegar ao trabalho. Foi exactamente pela falta de remuneração que muitos dos seus colegas abandonaram os postos de trabalho.

O mais velho conta que, desde muito cedo, foi obrigado a trabalhar, razão pela qual estudou apenas até a 8ª classe, para se tornar vendedor no mercado do Rock Santeiro. Quando foi destruído, Afonso recebeu o convite para trabalhar na Morgue Municipal de Cacuaco, mas, pela distância que percorria, decidiu pedir transferência. “Trabalhei bem nos primeiros três anos, tinha bom salário, conseguia me deslocar sem tantos transtornos”, confessa.

Passado o período das “vacas gordas”, começou o das “vacas magras”, com a redução de trabalhadores e salários. Desde aquele momento, as coisas só foram piorando.

“Já fizemos várias queixas, mas parece que tem sido em vão, a direcção já nem nos ouve, por isso, reunimos e decidimos fazer uma greve, para ver se nos atendem”, revelou.

Recentemente, a governadora de Luanda, Joana Lina, efectuou uma visita ao município do Kilamba Kiaxi e, numa passada à morgue, prometeu “rever a situação dos funcionários”.

Segundo Afonso Paxe, essa não é a primeira nem a segunda visita que recebem. Em 2018, o ex-governador, Sérgio Rescova, prometeu a mesma coisa numa das suas visitas. “Já não estamos tão confiantes com a promessa da governadora, mas, se ela conseguir resolver o nosso problema, seria um acto louvável”.

 “Muitos que trabalham aqui são pais de famílias, por favor Presidente da República, ajude-nos”, clamou, em nome da classe.

Má conservação dos corpos

Os maqueiros, como são chamados, são responsáveis pela conservação e organização dos corpos dentro das gavetas. Anteriormente, numa gaveta só era permitido, no máximo, três corpos. Hoje, junta-se mais de cinco cadáveres, “atirados”, de forma desorganizada.

Dentro da morgue, pessoas a gritarem e a chorarem a cada instante, um cenário comum. Uns, por encontrarem o corpo dos seus entes em péssimas condições, reclamam, mas parece que falam com as paredes, pois, ninguém aparece para dar alguma satisfação.

“Trouxe o meu filho quando eram 8 horas, como vivo próximo, não foi preciso alugar uma viatura. Quando cheguei com o meu cunhado, pediram-nos uma gasosa para sermos rapidamente atendidos, porque ele já não podia ficar muito tempo fora”, conta-nos, Marlene Cabral dos Santos, que perdeu o filho na passada segunda-feira, vítima de tuberculose óssea.

Dois mil kwanzas foi o valor que seu cunhado pagou num dos maqueiros, para colocar o menino numa das gavetas. Na quarta-feira, dia do funeral, Marlene chegou à morgue, juntamente com os cunhados, às 5 horas da manhã, para ocupar lugar e preparar o filho.

“Esperamos alguns minutos, só por termos pago, caso contrário, teríamos que esperar muito tempo. Entramos na sala onde estavam as gavetas para reconhecer o corpo e, para o meu espanto, o corpo do meu filho estava todo esmagado, nem dava para segurar, quando pegava, a pele caía. Não aguentei ver aquela cena e saí imediatamente. Dentro da gaveta havia vários corpos amontoados e não eram devidamente retirados”, descreve.

A seguir, a sua cunhada a informou que o corpo já não estava em condições de ser lavado e vestido. “Isso me doeu muito, porque eu já estava com a roupa que ele mais amava (um fato social azul escuro)”. Apesar disso, ainda tentaram dar banho ao menino, mas todos os esforços foram vãos e tiveram de o carregar enrolado em um cobertor. “O meu filho vai ser enterrado como um cão”, expressou, entre lágrimas, que, incontida, pediu que encerrássemos a entrevista.

Situações como essas são recorrentes em quase todas as morgues de Luanda e não só, mas os maqueiros dizem que não são culpados, tudo deve-se ao tratamento deplorável que recebem do governo.

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